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| Xilogravura de Lucélia Borges (detalhe) |
O Juiz Injusto
Um homem, que falava sempre em Deus, foi acusado
injustamente de ter matado outro. O verdadeiro assassino arranjou falsas
testemunhas contra ele. Um juiz muito cruel, pago pelo assassino, ordenou que
prendessem o homem devoto e o julgamento foi marcado. Se condenado, ficaria
preso por muitos anos. Para parecer que o julgamento seria justo, o juiz chamou
o povo para assisti-lo. Depois, pegou dois papéis dobrados e os levou até o réu
dizendo:
— Já que você fala tanto em Deus, vamos deixar que Ele
decida por você. Num papel está escrito condenado
e no outro, inocente. Boa sorte!
Mas nos dois papéis constava somente a palavra condenado.
O réu murmurou: “Deus me livre!” e rompeu em direção à caixa
onde estavam os dois papéis; pegou um, fez de conta que ia abri-lo, mas, para
surpresa geral, levou-o à boca e o engoliu. O juiz, que recebera por fora para
condená-lo, ferveu de raiva:
— Está maluco, infeliz?
O homem, sereno, respondeu:
— Não, seu juiz. Pelo contrário. Agora, sim, tenho certeza
de que se fará justiça. O senhor não disse que o papel decidiria minha sina?
Pois bem: se neste papel que restou estiver escrito inocente, o que engoli era o condenado.
Se, ao contrário, neste papel contiver a palavra condenado, significa que engoli o inocente.
Aberto o papel, o homem foi inocentado e o juiz ficou
desmoralizado perante o povo.
Passados muitos anos, arrependido, o juiz encontrou o homem
e contou toda a história.
Contado por José Alexandrino de Oliveira
Serra do Ramalho, Bahia.
NOTA: Nathan Ausubel reuniu no
livro A Treasury of Jewish Folklore (Crown Edition, 1948), como o
próprio título indica, várias preciosidades da tradição oral judaica,
espalhadas por muitos países. Um desses contos, O rabino e o inquisidor,
é ambientado em Sevilha antes da expulsão dos judeus da Espanha, em
plena efervescência da fúria persecutória da Inquisição espanhola.
Um menino cristão fora morto e os
judeus acusados de assassinato. O rabino, como líder da comunidade judaica, compareceu
diante do Grande Inquisidor. Não havia qualquer prova, mas o ardiloso
inquisidor valeu-se de um truque: deixaria a decisão para Deus, depositando
numa caixa dois pedaços de papel; um, com a palavra “culpado”, e o outro em
branco. Notando que o astuto inquisidor queria mandá-lo para a fogueira, o rabino
rapidamente levou à boca um dos papéis, engolindo- o em seguida. Ante a fúria
do inquisidor, o rabino, sereno, explicou que bastava conferir o papel na
caixa, o que foi feito. Se aquele papel dizia “culpado”, ele engolira o que estava
em branco, argumentou. E o inquisidor, humilhado, teve de deixá-lo partir.
Nos Studies in Jewish and
World Folklore (p. 237-38), Haim Schwarzbaum compendiou, além da lenda acima,
outras, ligadas à tradição judaica. Numa, o juiz simula escrever “for life”
(para a vida) ou “for death” (para a morte), depositando as duas folhas numa
caixa. O judeu sagaz, sentindo cheiro de farsa, escondeu um dos papéis no
bolso. Questionado sobre o que estava escrito na folha, ele pediu que
examinassem a deixada na caixa. Foi absolvido. Schwarzbaum cita ainda uma
versão iraquiana na qual um judeu afirma diante do rei, que o condenara à
morte, que este morrerá dois dias depois dele, e se safa por meio da astúcia. O
juiz injusto segue a estrutura dos contos citados; todavia, sobrepõe
a arrogância do homem da lei à devoção do acusado, atualização temática que
conserva vestígios dos contos de sabedoria do povo de Israel. No Índice de
Stith Thompson, o motivo H220 se refere às provocações para definição de culpa
ou inocência.
In: HAURÉLIO, Marco. Contos Encantados do
Brasil. Belo Horizonte: Aletria, 2022.
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