terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um conto criptojudaico no sertão da Bahia

Xilogravura de Lucélia Borges (detalhe)

O Juiz Injusto

Um homem, que falava sempre em Deus, foi acusado injustamente de ter matado outro. O verdadeiro assassino arranjou falsas testemunhas contra ele. Um juiz muito cruel, pago pelo assassino, ordenou que prendessem o homem devoto e o julgamento foi marcado. Se condenado, ficaria preso por muitos anos. Para parecer que o julgamento seria justo, o juiz chamou o povo para assisti-lo. Depois, pegou dois papéis dobrados e os levou até o réu dizendo:

— Já que você fala tanto em Deus, vamos deixar que Ele decida por você. Num papel está escrito condenado e no outro, inocente. Boa sorte!

Mas nos dois papéis constava somente a palavra condenado.

O réu murmurou: “Deus me livre!” e rompeu em direção à caixa onde estavam os dois papéis; pegou um, fez de conta que ia abri-lo, mas, para surpresa geral, levou-o à boca e o engoliu. O juiz, que recebera por fora para condená-lo, ferveu de raiva:

— Está maluco, infeliz?

O homem, sereno, respondeu:

— Não, seu juiz. Pelo contrário. Agora, sim, tenho certeza de que se fará justiça. O senhor não disse que o papel decidiria minha sina? Pois bem: se neste papel que restou estiver escrito inocente, o que engoli era o condenado. Se, ao contrário, neste papel contiver a palavra condenado, significa que engoli o inocente.

Aberto o papel, o homem foi inocentado e o juiz ficou desmoralizado perante o povo.

Passados muitos anos, arrependido, o juiz encontrou o homem e contou toda a história.

Contado por José Alexandrino de Oliveira

Serra do Ramalho, Bahia.

 

NOTA: Nathan Ausubel reuniu no livro A Treasury of Jewish Folklore (Crown Edition, 1948), como o próprio título indica, várias preciosidades da tradição oral judaica, espalhadas por muitos países. Um desses contos, O rabino e o inquisidor, é ambientado em Sevilha antes da expulsão dos judeus da Espanha, em plena efervescência da fúria persecutória da Inquisição espanhola.

Um menino cristão fora morto e os judeus acusados de assassinato. O rabino, como líder da comunidade judaica, compareceu diante do Grande Inquisidor. Não havia qualquer prova, mas o ardiloso inquisidor valeu-se de um truque: deixaria a decisão para Deus, depositando numa caixa dois pedaços de papel; um, com a palavra “culpado”, e o outro em branco. Notando que o astuto inquisidor queria mandá-lo para a fogueira, o rabino rapidamente levou à boca um dos papéis, engolindo- o em seguida. Ante a fúria do inquisidor, o rabino, sereno, explicou que bastava conferir o papel na caixa, o que foi feito. Se aquele papel dizia “culpado”, ele engolira o que estava em branco, argumentou. E o inquisidor, humilhado, teve de deixá-lo partir.

Nos Studies in Jewish and World Folklore (p. 237-38), Haim Schwarzbaum compendiou, além da lenda acima, outras, ligadas à tradição judaica. Numa, o juiz simula escrever “for life” (para a vida) ou “for death” (para a morte), depositando as duas folhas numa caixa. O judeu sagaz, sentindo cheiro de farsa, escondeu um dos papéis no bolso. Questionado sobre o que estava escrito na folha, ele pediu que examinassem a deixada na caixa. Foi absolvido. Schwarzbaum cita ainda uma versão iraquiana na qual um judeu afirma diante do rei, que o condenara à morte, que este morrerá dois dias depois dele, e se safa por meio da astúcia. O juiz injusto segue a estrutura dos contos citados; todavia, sobrepõe a arrogância do homem da lei à devoção do acusado, atualização temática que conserva vestígios dos contos de sabedoria do povo de Israel. No Índice de Stith Thompson, o motivo H220 se refere às provocações para definição de culpa ou inocência.

In: HAURÉLIO, Marco. Contos Encantados do Brasil. Belo Horizonte: Aletria, 2022.


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