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| "Pedro Malazarte e o fazendeiro". Xilogravura de Lucélia Borges |
Pedro Malazarte e o fazendeiro
Pedro Malazarte arrumou serviço
junto a um fazendeiro muito cruel. Só aceitou porque estava com fome, mas a
condição era ingrata: quem dos dois perdesse as estribeiras deixaria o outro
tirar uma correia de couro das costas. A primeira tarefa imposta a Pedro foi
limpar o feijão (ou seja, capinar o mato em volta da plantação). Pedro danou a
enxada e não deixou um pé vivo. Limpou tudo. Só ficou o mato. O fazendeiro ficou
pondo fogo pelas ventas, mas não podia se zangar.
Mandou então um cachorrinho
acompanhar Pedro na lida e recomendou:
— Você só venha quando o meu
cachorro vier.
Passou da hora do almoço e o
danado do cachorro por nada se movia do lugar, e a fome apertando. Pedro então
pegou uma vara e deu umas duas lapadas no cachorro, que tomou o rumo de casa. O
fazendeiro, ao vê-lo tão cedo de volta do serviço, indagou:
— O que faz aqui se o cachorro
ainda não veio? — E pediu à mulher que recolhesse o de comer.
Pedro aí mostrou o cachorro
encolhido num canto e matou a fome de jeito.
À noite, veio outra ordem
estranha:
— Agora, você vai me trazer uma
carrada de madeira, mas sem nenhum nó.
O cabra foi e passou o machado na
plantação de bananeira do fazendeiro. Quando trouxe a carga, este quase
endoideceu, mas se controlou, pois não podia mostrar-se zangado. Em seguida,
mandou o empregado levar o gado para a roça e só trazê-lo quando os bois
estivessem “achando graça”. Pedro cortou os beiços do gado, deixando os dentes
de fora, sorrindo. O homem ainda se conteve e deu outra ordem: no dia seguinte,
o gado deveria chegar todo penteado. Pedro danou o machado nos chifres,
entortando-os para trás.
Naquele ponto, o fazendeiro se
segurava sabe lá Deus como. No outro dia cedo, com muita fome, o homem pediu à
mulher que lhe fizesse um bolo de milho. Ela preparou, levou-o ao forno e,
quando o assou na folha da bananeira, deixou-o num canto para esfriar.
Pedro, quando a viu acocorada
fumando um cachimbo, se aproximou dela, todo jeitoso:
— Minha tia, eu só comparo a
senhora com a minha mãe. Eu saí de casa porque peguei uma briga danada com meu
irmão por causa da herança. Ele queria que eu ficasse deste lado — disse aquilo
enquanto riscava o bolo no meio com o indicador —, e eu queria ficar do outro —
fez um X no bolo do velho. — E eu fui pra lá e pra cá — repetia o gesto
com o dedo — e disse a ele, bravo, que ficasse com tudo! — E desmanchou o bolo
todo.
Na sala, o velho impaciente
perguntava:
— Minha velha, cadê o bolo?
Quando ele viu o estrago, perdeu
a paciência e começou a xingar:
— Que desgraceira foi essa?
Pedro esperou o novo dia e,
conforme o trato, tirou uma lapada de couro das costas do malvado fazendeiro e
foi para casa, feliz da vida.
Narrado por José Aldenir Aguiar (Mestre Aldenir do
Reisado),
Crato, Ceará.
NOTA: Classificação: ATU 1000 (Ganha quem não se zangar)
+ ATU 1003 (Lavrando a terra) + ATU 1011 (Arrancar o Pomar/ Vinha)
+ ATU 1007 (Outras formas de matar ou ferir o gado)
O falecido poeta popular João Damasceno Nobre, no folheto O quengo
de Pedro Malazarte no fazendeiro, reproduz alguns episódios narrados por
Mestre Aldenir. O antagonista é originalmente um ogro ou um gigante, conforme
algumas versões portuguesas (O rapaz e o gigante, de Consiglieri
Pedroso, e O criado Pedro e o gigante, de Alda e Paulo Soromenho, com
episódios distintos). Torna-se um rei ou, mais comumente, um fazendeiro, nas
versões brasileiras, reforçando o papel de Malazarte, burlão impiedoso, herói
sem glória, cuja área de ação foi magistralmente delimitada por Ruth Guimarães:
“Esse pícaro tem procuração para fazer o que o desvalido não pode, não sabe ou
tem medo de fazer, ou os três juntos: não pode, não sabe ou não tem a audácia
necessária. A tácita aprovação é evidente. Simbolicamente ele goza da maior
autoridade.” Herdeiro de Ulisses e de seu avô trapaceiro Autólico, Malazarte
encarna todas as contradições do pícaro, senhor de um mundo sem regras,
aparentemente imaturo, intimorato, instintivo, conservando todas as
“qualidades” dos tricksters animais, o que inclui imperturbável desprezo
por aqueles que ousam desafiá-lo e que terminam invariavelmente derrotados.
Conto jocoso recolhido por Marco Haurélio e publicado no livro Contos Encantados do Brasil, Aletria, 2022.
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