quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que Pedro Malazarte aprontou dessa vez?

"Pedro Malazarte e o fazendeiro". Xilogravura de Lucélia Borges

Pedro Malazarte e o fazendeiro

Pedro Malazarte arrumou serviço junto a um fazendeiro muito cruel. Só aceitou porque estava com fome, mas a condição era ingrata: quem dos dois perdesse as estribeiras deixaria o outro tirar uma correia de couro das costas. A primeira tarefa imposta a Pedro foi limpar o feijão (ou seja, capinar o mato em volta da plantação). Pedro danou a enxada e não deixou um pé vivo. Limpou tudo. Só ficou o mato. O fazendeiro ficou pondo fogo pelas ventas, mas não podia se zangar.

Mandou então um cachorrinho acompanhar Pedro na lida e recomendou:

— Você só venha quando o meu cachorro vier.

Passou da hora do almoço e o danado do cachorro por nada se movia do lugar, e a fome apertando. Pedro então pegou uma vara e deu umas duas lapadas no cachorro, que tomou o rumo de casa. O fazendeiro, ao vê-lo tão cedo de volta do serviço, indagou:

— O que faz aqui se o cachorro ainda não veio? — E pediu à mulher que recolhesse o de comer.

Pedro aí mostrou o cachorro encolhido num canto e matou a fome de jeito.

À noite, veio outra ordem estranha:

— Agora, você vai me trazer uma carrada de madeira, mas sem nenhum nó.

O cabra foi e passou o machado na plantação de bananeira do fazendeiro. Quando trouxe a carga, este quase endoideceu, mas se controlou, pois não podia mostrar-se zangado. Em seguida, mandou o empregado levar o gado para a roça e só trazê-lo quando os bois estivessem “achando graça”. Pedro cortou os beiços do gado, deixando os dentes de fora, sorrindo. O homem ainda se conteve e deu outra ordem: no dia seguinte, o gado deveria chegar todo penteado. Pedro danou o machado nos chifres, entortando-os para trás.

Naquele ponto, o fazendeiro se segurava sabe lá Deus como. No outro dia cedo, com muita fome, o homem pediu à mulher que lhe fizesse um bolo de milho. Ela preparou, levou-o ao forno e, quando o assou na folha da bananeira, deixou-o num canto para esfriar.

Pedro, quando a viu acocorada fumando um cachimbo, se aproximou dela, todo jeitoso:

— Minha tia, eu só comparo a senhora com a minha mãe. Eu saí de casa porque peguei uma briga danada com meu irmão por causa da herança. Ele queria que eu ficasse deste lado — disse aquilo enquanto riscava o bolo no meio com o indicador —, e eu queria ficar do outro — fez um X no bolo do velho. — E eu fui pra lá e pra cá — repetia o gesto com o dedo — e disse a ele, bravo, que ficasse com tudo! — E desmanchou o bolo todo.

Na sala, o velho impaciente perguntava:

— Minha velha, cadê o bolo?

Quando ele viu o estrago, perdeu a paciência e começou a xingar:

— Que desgraceira foi essa?

Pedro esperou o novo dia e, conforme o trato, tirou uma lapada de couro das costas do malvado fazendeiro e foi para casa, feliz da vida.

Narrado por José Aldenir Aguiar (Mestre Aldenir do Reisado),

Crato, Ceará.

 

NOTA: Classificação: ATU 1000 (Ganha quem não se zangar) + ATU 1003 (Lavrando a terra) + ATU 1011 (Arrancar o Pomar/ Vinha) + ATU 1007 (Outras formas de matar ou ferir o gado)

O falecido poeta popular João Damasceno Nobre, no folheto O quengo de Pedro Malazarte no fazendeiro, reproduz alguns episódios narrados por Mestre Aldenir. O antagonista é originalmente um ogro ou um gigante, conforme algumas versões portuguesas (O rapaz e o gigante, de Consiglieri Pedroso, e O criado Pedro e o gigante, de Alda e Paulo Soromenho, com episódios distintos). Torna-se um rei ou, mais comumente, um fazendeiro, nas versões brasileiras, reforçando o papel de Malazarte, burlão impiedoso, herói sem glória, cuja área de ação foi magistralmente delimitada por Ruth Guimarães: “Esse pícaro tem procuração para fazer o que o desvalido não pode, não sabe ou tem medo de fazer, ou os três juntos: não pode, não sabe ou não tem a audácia necessária. A tácita aprovação é evidente. Simbolicamente ele goza da maior autoridade.” Herdeiro de Ulisses e de seu avô trapaceiro Autólico, Malazarte encarna todas as contradições do pícaro, senhor de um mundo sem regras, aparentemente imaturo, intimorato, instintivo, conservando todas as “qualidades” dos tricksters animais, o que inclui imperturbável desprezo por aqueles que ousam desafiá-lo e que terminam invariavelmente derrotados.

Conto jocoso recolhido por Marco Haurélio e publicado no livro Contos Encantados do Brasil, Aletria, 2022. 

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