terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cordel de Todos os Tempos, o lançamento do ano

 Publicado originalmente em Cordel Atemporal.

Xilogravura da Capa: Jefferson Campos

A antologia Cordel de Todos os Tempos (Palavras Educação), publicada recentemente, nasceu de uma pesquisa que envolve poetas pioneiros e vozes contemporâneas da Literatura de Cordel. Desde 2017, eu acalentava a ideia e cheguei a propor a uma conhecida editora um projeto semelhante, mas não obtive resposta. Há uns dois anos, em reunião editorial na Palavras, que havia publicado outro texto de minha autoria, O Dragão da Maldade e a Donzela Guerreira, apresentei algumas propostas, e a de uma coletânea abarcando autores e textos de diferentes temporalidades, foi de pronto acolhida. 

História da Princesa da Pedra Fina. Xilogravura de Lucélia Borges

Adotei um critério cronológico e o primeiro cordel selecionado foi a História da Princesa da Pedra Fina, de autoria desconhecida, um dos primeiros textos que li na vida e um dos meus favoritos no gênero maravilhoso. Seguem-se História da Princesa Rosa e História de João da Cruz, de Silvino Pirauá e Leandro Gomes de Barros, respectivamente, e, fechando o bloco de autores pioneiros, homenageei José Pacheco (O Grande Debate de Lampião com São Pedro) e Severino Gonçalves de Oliveira (A Vitória do Príncipe Roldão no Reino do Pensamento). Todos autores nascidos em meados ou no final do século 19.

O Corcunda de Notre-Dame. Xilogravura de Luciana Costa

A grande novidade nesta coletânea é a presença de Maria das Neves Batista Pimentel, que assinava seus folhetos sob a alcunha "Altino Alagoano", nome de guerra de seu marido, Altino Alencar Pimentel, personagem singular, seja por sua trajetória de pioneira da autoria feminina na Literatura de Cordel, seja por pertencer à grande família Batista, a começar por seu pai, o famoso Francisco das Chagas Batista, e por seu avô materno, Agostinho Nunes da Costa, além de seu tio, Ugolino do Sabugi, entre outros nomes igualmente emblemáticos. A inclusão de O Corcunda de Notre-Dame, versão rimada do clássico romance de Victor Hugo, lançada originalmente em 1935, não visa à reparação de uma injustiça, mas leva-nos a compreender o contexto histórico de apagamento e silenciamento da autoria feminina. Maria das Neves, falecida em 1994, sintetiza a ponte intergeracional proposta neste projeto.

A Chegada de Ariano Suassuna no Céu. Xilogravura de Maercio Siqueira

E, assim, chegamos às vozes contemporâneas, autores e autoras, originários do Nordeste ou nascidos em contexto de diáspora, como Nilza Dias, profundamente conectados com suas raízes culturais e suas comunidades narrativas. Mestres da palavra, como Bule-Bule, vaqueiro por muito tempo, ferreiro, agricultor, sem nunca ter abandonado o pandeiro e a viola, com que complementava a sua renda. Mulheres que escancaram portas e janelas, como Nezite Alencar e Josenir Lacerda, oriundas do campo, cantando os dramas de seu povo e também as suas conquistas. Vozes indígenas, como Auritha Tabajara, que carrega em seu nome ancestral a marca identitária de seu povo. Ou como João Gomes de Sá, nutrido pelas histórias ouvidas às margens do São Francisco ou na voz de sua avó, de etnia Jeripankó. Gente nascida no campo, como Klévisson Viana e Maria Celma, nutrida por histórias de serras e encruzilhadas, assistindo aos festejos populares do Grande Sertão imemorial.

Histórias de um Mentiroso. Xilogravura de Nireuda

É de grande relevância, ainda, a identidade visual construída por meio da contribuição de xilogravuristas de nosso tempo, a exemplo de Lucélia Borges, Nireuda Longobardi, Jefferson Campos, Luciana Costa, Maercio Siqueira, Catarina Dantas e Regina Drozina. 

Ao final, elaborei notas com informações importantes sobre os cordéis, destacando sua intertextualidade, o contexto em que foram escritos e a razão de alguns terem se tornado clássicos do gênero no Brasil. Ao final de cada cordel, um vocabulário ajuda na compreensão do contexto e dá prova da diversidade linguística da Literatura de Cordel.

A coletânea Cordel de Todos os Tempos é constituída das seguintes obras:

  • História da Princesa da Pedra Fina [autoria desconhecida, xilogravuras de Lucélia Borges]
  • História da Princesa Rosa [Silvino Pirauá de Lima. Xilogravura de Nireuda Longobardi]
  • História de João da Cruz [Leandro Gomes de Barros, xilogravuras de Jefferson Campos]
  • O Grande Debate de Lampião com São Pedro [José Pacheco, xilogravura de Luciana Costa]
  • A Vitória do Príncipe Roldão no Reino do Pensamento [Severino Gonçalves de Oliveira, xilogravura de Catarina Dantas]
  • O Corcunda de Notre-Dame [Maria das Neves Batista Pimentel, xilogravura de Luciana Costa]
  • Histórias de um Mentiroso [Nezite Alencar, xilogravura de Nireuda Longobardi]
  • A Chegada de Ariano Suassuna no Céu [Bule-Bule e Klévisson Viana, xilogravura de Maércio Siqueira]
  • O Sopro da Deusa [Josenir Lacerda, xilogravura de Lucélia Borges]
  • O Corcunda e o Ranheta [Marco Haurélio e João Gomes de Sá, xilogravura de Maércio Siqueira]
  • A Sorte do Preguiçoso [Maria Celma, xilogravura de Catarina Dantas]
  • Expressões Populares em Cordel [Nilza Dias, xilogravura de Regina Drozina]
  • A Sagrada Pedra Encantada [Auritha Tabajara, xilogravura de Regina Drozina]

Cordel de Todos os Tempos está disponível para vendas em vários espaços físicos e virtuais.

Para adquirir, clique AQUI ou AQUI. 



terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um conto criptojudaico no sertão da Bahia

Xilogravura de Lucélia Borges (detalhe)

O Juiz Injusto

Um homem, que falava sempre em Deus, foi acusado injustamente de ter matado outro. O verdadeiro assassino arranjou falsas testemunhas contra ele. Um juiz muito cruel, pago pelo assassino, ordenou que prendessem o homem devoto e o julgamento foi marcado. Se condenado, ficaria preso por muitos anos. Para parecer que o julgamento seria justo, o juiz chamou o povo para assisti-lo. Depois, pegou dois papéis dobrados e os levou até o réu dizendo:

— Já que você fala tanto em Deus, vamos deixar que Ele decida por você. Num papel está escrito condenado e no outro, inocente. Boa sorte!

Mas nos dois papéis constava somente a palavra condenado.

O réu murmurou: “Deus me livre!” e rompeu em direção à caixa onde estavam os dois papéis; pegou um, fez de conta que ia abri-lo, mas, para surpresa geral, levou-o à boca e o engoliu. O juiz, que recebera por fora para condená-lo, ferveu de raiva:

— Está maluco, infeliz?

O homem, sereno, respondeu:

— Não, seu juiz. Pelo contrário. Agora, sim, tenho certeza de que se fará justiça. O senhor não disse que o papel decidiria minha sina? Pois bem: se neste papel que restou estiver escrito inocente, o que engoli era o condenado. Se, ao contrário, neste papel contiver a palavra condenado, significa que engoli o inocente.

Aberto o papel, o homem foi inocentado e o juiz ficou desmoralizado perante o povo.

Passados muitos anos, arrependido, o juiz encontrou o homem e contou toda a história.

Contado por José Alexandrino de Oliveira

Serra do Ramalho, Bahia.

 

NOTA: Nathan Ausubel reuniu no livro A Treasury of Jewish Folklore (Crown Edition, 1948), como o próprio título indica, várias preciosidades da tradição oral judaica, espalhadas por muitos países. Um desses contos, O rabino e o inquisidor, é ambientado em Sevilha antes da expulsão dos judeus da Espanha, em plena efervescência da fúria persecutória da Inquisição espanhola.

Um menino cristão fora morto e os judeus acusados de assassinato. O rabino, como líder da comunidade judaica, compareceu diante do Grande Inquisidor. Não havia qualquer prova, mas o ardiloso inquisidor valeu-se de um truque: deixaria a decisão para Deus, depositando numa caixa dois pedaços de papel; um, com a palavra “culpado”, e o outro em branco. Notando que o astuto inquisidor queria mandá-lo para a fogueira, o rabino rapidamente levou à boca um dos papéis, engolindo- o em seguida. Ante a fúria do inquisidor, o rabino, sereno, explicou que bastava conferir o papel na caixa, o que foi feito. Se aquele papel dizia “culpado”, ele engolira o que estava em branco, argumentou. E o inquisidor, humilhado, teve de deixá-lo partir.

Nos Studies in Jewish and World Folklore (p. 237-38), Haim Schwarzbaum compendiou, além da lenda acima, outras, ligadas à tradição judaica. Numa, o juiz simula escrever “for life” (para a vida) ou “for death” (para a morte), depositando as duas folhas numa caixa. O judeu sagaz, sentindo cheiro de farsa, escondeu um dos papéis no bolso. Questionado sobre o que estava escrito na folha, ele pediu que examinassem a deixada na caixa. Foi absolvido. Schwarzbaum cita ainda uma versão iraquiana na qual um judeu afirma diante do rei, que o condenara à morte, que este morrerá dois dias depois dele, e se safa por meio da astúcia. O juiz injusto segue a estrutura dos contos citados; todavia, sobrepõe a arrogância do homem da lei à devoção do acusado, atualização temática que conserva vestígios dos contos de sabedoria do povo de Israel. No Índice de Stith Thompson, o motivo H220 se refere às provocações para definição de culpa ou inocência.

In: HAURÉLIO, Marco. Contos Encantados do Brasil. Belo Horizonte: Aletria, 2022.


Para adquirir o livro, clique AQUI. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que Pedro Malazarte aprontou dessa vez?

"Pedro Malazarte e o fazendeiro". Xilogravura de Lucélia Borges

Pedro Malazarte e o fazendeiro

Pedro Malazarte arrumou serviço junto a um fazendeiro muito cruel. Só aceitou porque estava com fome, mas a condição era ingrata: quem dos dois perdesse as estribeiras deixaria o outro tirar uma correia de couro das costas. A primeira tarefa imposta a Pedro foi limpar o feijão (ou seja, capinar o mato em volta da plantação). Pedro danou a enxada e não deixou um pé vivo. Limpou tudo. Só ficou o mato. O fazendeiro ficou pondo fogo pelas ventas, mas não podia se zangar.

Mandou então um cachorrinho acompanhar Pedro na lida e recomendou:

— Você só venha quando o meu cachorro vier.

Passou da hora do almoço e o danado do cachorro por nada se movia do lugar, e a fome apertando. Pedro então pegou uma vara e deu umas duas lapadas no cachorro, que tomou o rumo de casa. O fazendeiro, ao vê-lo tão cedo de volta do serviço, indagou:

— O que faz aqui se o cachorro ainda não veio? — E pediu à mulher que recolhesse o de comer.

Pedro aí mostrou o cachorro encolhido num canto e matou a fome de jeito.

À noite, veio outra ordem estranha:

— Agora, você vai me trazer uma carrada de madeira, mas sem nenhum nó.

O cabra foi e passou o machado na plantação de bananeira do fazendeiro. Quando trouxe a carga, este quase endoideceu, mas se controlou, pois não podia mostrar-se zangado. Em seguida, mandou o empregado levar o gado para a roça e só trazê-lo quando os bois estivessem “achando graça”. Pedro cortou os beiços do gado, deixando os dentes de fora, sorrindo. O homem ainda se conteve e deu outra ordem: no dia seguinte, o gado deveria chegar todo penteado. Pedro danou o machado nos chifres, entortando-os para trás.

Naquele ponto, o fazendeiro se segurava sabe lá Deus como. No outro dia cedo, com muita fome, o homem pediu à mulher que lhe fizesse um bolo de milho. Ela preparou, levou-o ao forno e, quando o assou na folha da bananeira, deixou-o num canto para esfriar.

Pedro, quando a viu acocorada fumando um cachimbo, se aproximou dela, todo jeitoso:

— Minha tia, eu só comparo a senhora com a minha mãe. Eu saí de casa porque peguei uma briga danada com meu irmão por causa da herança. Ele queria que eu ficasse deste lado — disse aquilo enquanto riscava o bolo no meio com o indicador —, e eu queria ficar do outro — fez um X no bolo do velho. — E eu fui pra lá e pra cá — repetia o gesto com o dedo — e disse a ele, bravo, que ficasse com tudo! — E desmanchou o bolo todo.

Na sala, o velho impaciente perguntava:

— Minha velha, cadê o bolo?

Quando ele viu o estrago, perdeu a paciência e começou a xingar:

— Que desgraceira foi essa?

Pedro esperou o novo dia e, conforme o trato, tirou uma lapada de couro das costas do malvado fazendeiro e foi para casa, feliz da vida.

Narrado por José Aldenir Aguiar (Mestre Aldenir do Reisado),

Crato, Ceará.

 

NOTA: Classificação: ATU 1000 (Ganha quem não se zangar) + ATU 1003 (Lavrando a terra) + ATU 1011 (Arrancar o Pomar/ Vinha) + ATU 1007 (Outras formas de matar ou ferir o gado)

O falecido poeta popular João Damasceno Nobre, no folheto O quengo de Pedro Malazarte no fazendeiro, reproduz alguns episódios narrados por Mestre Aldenir. O antagonista é originalmente um ogro ou um gigante, conforme algumas versões portuguesas (O rapaz e o gigante, de Consiglieri Pedroso, e O criado Pedro e o gigante, de Alda e Paulo Soromenho, com episódios distintos). Torna-se um rei ou, mais comumente, um fazendeiro, nas versões brasileiras, reforçando o papel de Malazarte, burlão impiedoso, herói sem glória, cuja área de ação foi magistralmente delimitada por Ruth Guimarães: “Esse pícaro tem procuração para fazer o que o desvalido não pode, não sabe ou tem medo de fazer, ou os três juntos: não pode, não sabe ou não tem a audácia necessária. A tácita aprovação é evidente. Simbolicamente ele goza da maior autoridade.” Herdeiro de Ulisses e de seu avô trapaceiro Autólico, Malazarte encarna todas as contradições do pícaro, senhor de um mundo sem regras, aparentemente imaturo, intimorato, instintivo, conservando todas as “qualidades” dos tricksters animais, o que inclui imperturbável desprezo por aqueles que ousam desafiá-lo e que terminam invariavelmente derrotados.

Conto jocoso recolhido por Marco Haurélio e publicado no livro Contos Encantados do Brasil, Aletria, 2022. 

Para adquirir o livro, clique AQUI. 

terça-feira, 16 de julho de 2024

A cabeça do defunto


Xilogravura de Lucélia Borges


Um homem apostou que tinha coragem de ir ao cemitério por volta da meia-noite. Mas outro homem, provocador que só, afirmou que ele não tinha coragem para tal. E pôs um bolo de dinheiro sobre a mesa, provocando:

— Se você, além de ir ao cemitério, me trouxer uma carcaça da cabeça de um defunto, leva todo esse dinheiro.

Outro homem, que passava em frente à casa, os viu apostando e correu para o cemitério. Lá, se escondeu atrás de uma carneira.

O apostador chegou e começou a cavar uma sepultura. Quando deu no caixão, que foi abri-lo, ouviu uma voz:

— Essa cabeça, não! Essa cabeça é do meu avô!

Cavacou outra cova e, depois de muito trabalho, ouviu:

— Essa daí não! Essa é do meu pai!

Quando cavacou noutro local, já chegando aos ossos da cabeça, ouviu a voz, agora mais apavorante ainda:

— Agora essa daí é pior! Essa é a minha cabeça!

O homem já estava pelas tantas e respondeu:

— Seja sua ou de quem for, mas que eu levo, eu levo!

Arrancou a caveira e seguiu com ela para a casa do amigo. O sujeito que estava escondido, com um vestuário que parecia uma mortalha, saiu a correr atrás dele, gritando:

— Devolve minha cabeça! Devolve minha cabeça!

O homem chegou ao local, apavorado, e jogou a cabeça no colo daquele com o qual apostara.

— A cabeça está aqui, mas o corpo vem logo atrás!

Quando eles olharam, que viram o que imaginavam ser um fantasma, saíram correndo, deixando todo o dinheiro para trás. O falso fantasma chegou ao local, embolsou o dinheiro e foi-se embora, feliz da vida.

Narrado por José Alexandrino de Souza

Serra do Ramalho, Bahia.

Fonte: Contos Encantados do Brasil (Aletria, 2022).

Para adquirir o livro, clique AQUI. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O Velho Chagado, um edificante conto popular brasileiro

Xilogravura de Lucélia Borges.

Quando Nosso Senhor andava pelo mundo, era sempre em estado de penitente, todo chagado, para ninguém o reconhecer. Uma vez, disfarçado num velhinho, ele chegou a uma casa onde morava um casal. A mulher, que era muito jeitosa, vendo o pobre velho com a barriga quase pregada no espinhaço, apontou-lhe uma cadeira:

— Sente-se aqui, meu velho, que logo eu trarei sua esmola.

Depois disso, trouxe um algodão, embebido em água com sal, e enxugou-lhe as chagas.

Ele agradeceu-lhe e disse que precisava ir, mas a mulher, vendo o seu estado de penúria, não deixou:

— O senhor só vai quando almoçar — e apontou-lhe a única rede que tinha. — Deite-se aqui para descansar, enquanto faço o almoço.

— Não, minha filha! Minhas chagas mancharão sua rede.

— Não tem problema. É por isso que tem água e sabão no mundo!

E foi no quintal, pegou a única galinha que havia, matou e preparou-a para o almoço. Nessa hora, o seu marido chegou da roça, perguntando:

— Quem é aquele velho deitado na nossa rede?

— Um pobrezinho que chegou aqui com muita fome. Pediu água e eu o convidei para o almoço.

— E fez muito bem! — disse o marido, indo em seguida chamar o velho para almoçar.

Quando o pobre velho se levantou, as marcas de seu corpo ficaram impressas na rede: seus braços abertos, suas costas, seus pés. O homem desarmou a rede, enrolou-a e a encostou num canto. Depois do almoço, o mendigo agradeceu e foi-se embora. E o dono da casa botou a enxada nos ombros e voltou para a roça.

Às cinco da tarde, quando retornou, entrando na sala, ele sentiu aquele aroma de jasmim. Um cheiro agradável como nunca havia sentido.

— Mulher, que perfume você usou nesta sala?

— Nenhum!

Ele foi onde estava a rede, desenrolou-a e ela estava mais alva do que antes. Perceberam, os dois, que aquele velhinho era Nosso Senhor. O homem ainda selou o cavalo e saiu à sua procura, mas nem sinal.

Daquele dia em diante, aquela casa ficou abençoada e não faltou mais nada ao bondoso casal.

Mestre Aldenir. Crédito: Mapa Cultural do Ceará

Narrado por: José Aldenir Aguiar (Mestre Aldenir do Reisado), Crato, Ceará.

Conto religioso recolhido por Marco Haurélio e publicado no livro Contos Encantados do Brasil, Aletria, 2022. 

Para adquirir o livro, clique aqui. 

sábado, 12 de novembro de 2022

Contos Encantados do Brasil

 

Contos Encantados do Brasil, uma viagem ao Brasil profundo
por meio dos contos populares. 

Acaba de sair, com o selo da Aletria, editora mineira sob a coordenação de Rosana Mont'Alverne, o livro Contos Encantados do Brasil, reunião de contos de tradição oral, recolhidos por Marco Haurélio e ilustrados, com xilogravuras, por Lucélia Borges. A obra inova por trazer duas opções de capa assinadas por Caroline Gischewski, responsável pelo projeto gráfico, a partir de xilogravura de Lucélia Borges.

Abaixo, compilamos trechos do prefácio escrito pelo autor:

Se perguntarmos a alguém por que faz determinado gesto, ele poderá não saber o motivo, e talvez responda que o faz “inconscientemente” ou aprendeu com outra pessoa… que aprendeu com outra pessoa, que aprendeu com outra… De forma semelhante, os contos ditos tradicionais se propagam. Ouvimos, repetimos, lembramos, esquecemos, ampliamos, reduzimos. Contamos. E, quando contamos, trazemos para junto de nós, para o nosso círculo familiar, narradores e mais narradores que, ao longo de séculos, milênios talvez, garantiram que as histórias não se perdessem. A trajetória dos contos populares, com destaque para sua incrível capacidade de adaptação, tem suscitado acalorados debates e fomentado o surgimento de algumas escolas, cuja sobrevivência dependeu sempre mais do poder de argumentação de seus membros do que da sua capacidade de, efetivamente, comprovar os seus postulados. Não é nosso propósito aqui enumerar as escolas do Folclore, nomear seus membros ou exumar as suas doutrinas. Importa-nos, por enquanto, tão somente, chamar a atenção para o conto popular, objeto do presente trabalho, uma recolha abrangente, compreendendo um significativo número de versões, que vão desde os contos mais complexos, como o de cunho maravilhoso, aos aparentemente mais simples, e, quando escrevo “mais simples”, refiro-me a questões puramente formais, já que, na contística popular, toda pedra é preciosa. Mesmo o que não reluz é ouro.


O conto popular, também chamado estória (ou história) de Trancoso, da Carochinha, é uma das mais antigas formas de expressão verbal, contemporâneo dos primeiros grupos humanos, irmão do mito, com o qual se confunde, ainda que este se apoie num “ato de crença, de crença em seu objeto, sem o que perde sua base”.1 Irmanado ainda à lenda e à fábula, alimento intelectual de todos os povos, de todas as épocas, o conto preserva, quase sempre de forma cifrada, informações sobre hábitos, usos, costumes, provérbios, crenças, estatutos de épocas as mais diversas, abarcando, praticamente, em sua amplitude temática, todos os assuntos relativos à ciência do Folclore; constitui-se, porém, em parte inseparável do todo, “como a mão com relação ao corpo ou a folha com relação à árvore”. Difere da lenda e do mito por sua universalidade, e com isso não queremos dizer que todos os contos alcançam todos os cantos, e, sim, que, aonde chegam, recebem melhor acolhida graças à sua poderosa capacidade de adaptação.

"Canivetão". Xilogravura de Lucélia Borges. 

A maior parte dos contos maravilhosos difundiu-se por uma vasta área geográfica que vai da Índia à Irlanda, ampliada, depois, pelo processo colonizador. Chegaram ao Brasil, certamente, com as primeiras levas de colonos portugueses e, misturados às narrativas ameríndias, nas quais predominava o fantástico, e às histórias trazidas das Áfricas, ganharam novo colorido no Nordeste primeiramente, mormente nos sertões povoados de assombros milenares. No conto, nada é novo e nada é velho. As transformações atendem a uma dinâmica muito particular que envolve questões externas, como a influência do ambiente e dos costumes e crenças, e internas, estas atinentes às dimensões alegórica e simbólica.

Nas versões sertanejas do conto da Cinderela, a moça não vai ao baile no palácio do príncipe, mas à missa, realiza tarefas típicas do sertão de outrora, como adicionar água aos potes ou alimentar os animais das velhas que a auxiliarão doravante. Os motivos essenciais do conto, no entanto, pouco mudam, qualquer que seja a época ou o lugar. O sapato que possibilita o casamento de Cinderela com o príncipe, por exemplo, é um tema que pode ser rastreado em milhares de versões. Era parte de um rito matrimonial introduzido no Egito, provavelmente durante o domínio persa, nutrindo a lenda de Ródope, a cortesã grega que vem a desposar o faraó. É o que nos conta Heródoto: uma águia arrebata o sapato da nossa heroína e o deixa cair sobre o faraó, fazendo com que o soberano do Egito envide todos os seus esforços para encontrar a dona do tal calçado que tanto o fascinara (História, tomo II, XCVIII). O teste de casamento, por meio do experimento do calçado, era, segundo informação de Luís da Câmara Cascudo, “ainda popular na Alemanha do século XVI”, aproximadamente trezentos anos antes de os Irmãos Grimm registrarem a versão mais famosa da história.

"A princesa da Cara de Pau", versão brasileira de "Pele de Asno".
Xilogravura de Lucélia Borges

Todos os contos reunidos neste livro foram colhidos diretamente da fonte da memória, isto é, foram ouvidos, anotados e fixados, mantendo-se sua estrutura básica e conservando, quase sempre, as marcas da oralidade. Os narradores, guardiães da tradição, são identificados ao final de cada história. Um deles, o senhor José Marques de Sousa, apelidado carinhosamente de Zé Cabeça, falecido em 2019, por ocasião da coleta das histórias, em 2015, afirmou ter 107 anos de idade. Além de Bela Inês e a Moura Torta e Panela, colher e chicote, narrou outros contos, publicados no livro Vozes da tradição. Três histórias (Branca Flor, Bestore e a princesa e Maria Borralheira) foram publicadas originalmente no livro O Príncipe Teiú e outros contos brasileiros, de circulação muito restrita.

No tangente à divisão, optamos pelo Sistema ATU (Aarne-Thompson-Uther), adotado em outras publicações nossas, com uma única alteração: começamos pelos contos maravilhosos, ou de encantamento, mais numerosos, e não pelos contos de animais, como seria de se esperar, por se tratar de uma tabela alfanumérica. Contamos, como sempre, com o apoio dos professores Paulo Correia e José Joaquim Dias Marques, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO), da Universidade do Algarve, Faro, Portugal.

"Maria da Cobrinha". Xilogravura de Lucélia Borges.

Recolhidos, em sua maioria, no sertão baiano, universais nos motivos e temática, nacionais nas cores, sotaques, variantes linguísticas e no colorido da flora e fauna, os nossos contos comprovam o que foi dito pelo grande escritor mineiro João Guimarães Rosa, que também bebeu na fonte da tradição: “O sertão é o mundo.” Mundo que vira mar, como previu o beato Antônio Conselheiro, mar de histórias, água de vertente que, teimosa, ainda cisma em correr.

Italo Calvino, no posfácio ao Pentameron, em 1974, afirma que “el mundo de las fábulas és um mundo matinal”, e, no caso de Basile, manifesta-se sempre com uma metáfora distinta. Na nossa coletânea, alvoradas e crepúsculos se alternam em muitas narrativas, mas a mensagem, implícita, é a de que as histórias sempre vêm à luz. Basta que tomemos assento e abramos o coração e os ouvidos, para que a jornada comece. Ou recomece, quando, a cada escuta, espaço e tempo se transfiguram e podemos contemplar, embevecidos, as cores de um entardecer que jamais deixou de ser manhã.

MAIS INFORMAÇÕES:

Título original: Contos Encantados do Brasil

2022, 1ª edição

337 páginas, 13,5 x 20,5 cm

ISBN: 9786586881851

Autor: Marco Haurélio

Ilustrações: Lucélia Borges


Para adquirir a obra, clique AQUI ou AQUI. 

Fonte: Cordel Atemporal. 

sábado, 11 de junho de 2022

Sobre o conto popular

 

Os três cavalos encantados. Xilogravura de Lucélia Borges

O conto popular, também chamado estória (ou história) de Trancoso, da Carochinha, é uma das mais antigas formas de expressão verbal, contemporâneo dos primeiros grupos humanos, irmão do mito, com o qual se confunde, ainda que este se apoie, segundo Renato Almeida, num “ato de crença, de crença em seu objeto, sem o que perde sua base”. Irmanado ainda à lenda e à fábula, alimento intelectual de todos os povos, de todas as épocas, o conto preserva, quase sempre de forma cifrada, informações sobre hábitos, usos, costumes, provérbios, crenças, estatutos de épocas as mais diversas, abarcando, praticamente, em sua amplitude temática, todos os assuntos relativos à ciência do Folclore; constitui-se, porém, em parte inseparável do todo, “como a mão com relação ao corpo ou a folha com relação à árvore” (PROPP). Difere da lenda e do mito por sua universalidade, e com isso não queremos dizer que todos os contos alcançam todos os cantos, e, sim, que, aonde chegam, recebem melhor acolhida graças à sua poderosa capacidade de adaptação.

Os contos maravilhosos, de magia ou de encantamento conservam elementos temáticos mitológicos, razão pela qual nos parecem tão familiares, assim como em outros tempos, devem ter parecido familiares aos trabalhadores que ergueram as pirâmides de Gizé ou aos guerreiros que, por dez anos, combateram diante das muralhas de Troia. No antigo Egito, por exemplo, em vários fragmentos encontramos motivos ainda correntes em contos da Europa e da Ásia, a exemplo de “O náufrago”, cuja datação imprecisa compreende de 2000 a.C. a 1700 a.C. É uma história incompleta, com lacunas, tendo como protagonista um único sobrevivente de um naufrágio no Mar Vermelho, lançado a uma ilha governada por um rei dos espíritos em forma de serpente. Apesar da gentileza com que é tratado, o homem vive com medo, até que, quatro meses depois, é resgatado por um navio. Antes, o rei da ilha lhe conta uma história sobre uma donzela terrestre que vivera no local e perecera com a família do rei.

Como a história da donzela aparece sem desenvolvimento algum, Stith Thompson, estudando os motivos, pergunta: “Trata-se do conto de um ogro e do resgate de uma menina, como no conto popular de hoje?” Outro conto bastante difundido, de época mais recente (entre 1600 a.C. e 1000 a.C.), narra a história de um general egípcio que, fingindo trair o seu exército, promete enviar centenas de presentes à cidade guarnecida por seus inimigos. Os supostos presentes eram sacos ou jarros enormes com os soldados do general que, levados para dentro da cidade, causaram a sua ruína. A burla, que antecipa em alguns séculos o desfecho da Guerra de Troia (the Trojan Horse, motivo K754.1 na tabela de Thompson), reaparece no conto Ali-Babá e os quarenta ladrões das Mil e uma noites.

Trecho da introdução ao livro Contos encantados do Brasil (Aletria), lançado recentemente pela Editora Aletria. Para adquirir a obra, clique AQUI. 

Para comprar na Amazon, clique AQUI.