domingo, 23 de fevereiro de 2014

As origens da canção Couro de Boi

Teddy Vieira, coautor de Couro de Boi

Na obra Música Caipira – as 270 maiores modas de todos os tempos, o jornalista José Hamilton Ribeiro, comentado a canção “Couro de Boi”, de Palmeira e Teddy Vieira, diz tratar-se de “uma fábula de família, com todo o jeito de ser algo imemorial, que passa de geração a geração”. E, mesmo sem ir além da especulação, ele está certo. Na França, no séc. XIX, Joseph Bédier, autor da versão literária de Tristão e Isolda, incluiu a história do velho que é expulso de casa pelo filho ingrato entre os fabliaux de sua terra. O professor Bráulio do Nascimento informa que o conto-tipo A Manta Partida (O Filho Ingratofigura no Livro dos Exemplos por ABC, de Sanchez Vercial, e no Espéculo de los Leigos, anteriores ao século XVI". O pai é abandonado pelo filho desnaturado numa montanha. Recebe deste uma manta, mas, antes que ele se vá,  o velho divide-a ao meio, recomendando-lhe que a guarde para a velhice, para quando o seu filho o trouxer para o mesmo local.

Nos Kinder-und Hausmärchen, dos Irmãos Grimm, a versão é O Filho Ingrato, na qual o filho esconde um frango assado do pai, já bem velhinho. O frango, por castigo, se transforma num asqueroso sapo que se agarra ao rosto do malvado, para nunca mais soltar. Mais próxima das versões brasileira, classificada como AT 980, é O Avô e o Netinho, também constante da célebre antologia dos Grimm. O velho é malquisto do filho e da nora, e, quando deixa cair uma tigela de sopa, as coisas só pioram. É-lhe oferecida outra tigela de madeira, simples e grosseira, aumentando mais ainda a humilhação. O netinho de quatro anos começa a juntar pedaços de madeira do chão e, indagado pelo pai, diz que está fazendo uma gamela “para dar de comer a papai e a mamãe quando eu for grande”.

No Brasil, foram recolhidas versões por Câmara Cascudo (em Natal) e Waldemar Iglésias Fernandez (em Piracicaba). O cancioneiro caipira que, como o cordel, bebe na fonte imaterial da tradição, conservou a versão em que a manta é substituída pelo couro de boi, comprovando o poder da pecuária, dando coloração local a um tema universal. Abaixo, a bela letra de Teddy Vieira e Palmeira:

Conheço um velho ditado

Que é do tempo do zagai:

Um pai trata dez filho,

Dez filho não trata um pai.


Sentindo o peso dos anos,

Sem poder mais trabalhar,

O velho peão estradeiro

Com seu filho foi morar.

O rapaz era casado

E a mulher deu de implicar:

Você manda o velho embora

Se não quiser que eu vá.

E o rapaz, coração duro,

Com o velhinho foi falar:


Para o senhor se mudar

Meu pai eu vim lhe pedir,

Hoje aqui da minha casa

O senhor tem que sair.

Leva este couro de boi,

Que eu acabei de curtir,

Pra lhe servir de coberta

Adonde o senhor dormir.


O pobre velho calado

Pegou o couro e saiu.

Seu neto de oito anos,

Que aquela cena assistiu,

Correu atrás do avó,

Seu paletó sacudiu,

Metade daquele couro,

Chorando, ele pediu.


O velhinho comovido

Pra não ver o neto chorando,

Partiu o couro no meio

E pro netinho foi dando.

O menino chegou em casa,

Seu pai foi lhe perguntando:

Pra que você quer esse couro

Que seu avô ia levando?


Disse o menino ao pai:

Um dia vou me casar,

O senhor vai ficar velho

E comigo vem morar.

Pode ser que aconteça

De nós não se combinar,

Esta metade do couro

Vou dar pro senhor levar.

Couro de Boi (Filho Ingrato) nas vozes de Tonico e Tinoco.



6 comentários:

  1. Não conhecia esta canção. Tens toda a razão, ela é mesmo baseada no conto "A Manta Partida" (ou, como lhe chama o ATU, "O Filho Ingrato"). Só uma correçãozinha: trata-se do conto-tipo 980 e não 480 (como dizes no blogue). É muito provável que a canção esteja baseada numa versão oral do conto que o autor da letra tenha ouvido. Mas não é impossível que no Brasil, tal como em Portugal, uma versão desse conto tenha sido incluída em livros escolares para o ensino fundamental, e que seja essa a fonte do autor da letra. De qualquer modo, muito interessante essa tua descoberta, Marco Haurélio!

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  2. Obrigado, JJ, pela retificação. Foi um erro de digitação já corrigido. Meu avô, Florisvaldo Ferreira (Lô) conta essa história, o que mostra sua difusão poer uma área muito extensa.

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  3. Parabéns pelo blog, e pelos seus cometários. Meu interesse é contribuir e ajudar.
    Lá pela década de 70 nós assistíamos televisão (o sinal vinha por repetidoras até nós) um programa sertanejo ou caipira que não era no estilo concurso, mas era um programa em que eram comentadas as letras e músicas, como por exemplo as métricas, palavreados usados, com ênfase na rima.
    As duplas tocavam e cantavam; e, mestres das letras, como Zé Fortuna, João Pacífico e outros, analisavam. Neste programa eu aprendi muito sobre o assunto.
    Na letra Couro de Boi o autor fez “rima perfeita”: Conheço um velho ditado que é do tempo do zagai: um pai trata dez filho, dez filho não trata um pai.
    Nesta história da música Couro de Boi, os mestres disseram que o zagai era um senhor muito malvado com muitos peões que cometia muitas atrocidades com eles. Por isso marcou a época “do tempo do zagai”.
    Existia um meio de transporte de víveres e objetos, pelos carreadores, feito de uma forquilha de árvore tipo cabeçalho de carro sem rodas com uma trave para prender troncos mestres e palanques, movida por tração animal, na região onde cresci chamavam zorra.
    O zagai usava tração humana. Pela dificuldade do trabalho de puxar via tração humana associaram o nome zagaia ao instrumento de transporte. Quem desagradava o zagai por algum motivo ia puxar a zagaia.
    Antigamente, o instrumento de transporte era tipo trenó, usado antes da invenção da roda.
    Existe uma confusão entre as palavras zagaia e zagai na letra da música Couro de Boi. Outras colocações também usadas na interpretação da palavra zagai:
    1. Flecha ou lança azagaia: http://eloir-mario.blogspot.com.br/2011/12/zagaia.html
    2. Zé Gaio http://www.letrasdecanciones.fm/pena-branca-e-xavantinho/couro-de-boi#conheco-um-velho-ditado-que-e-do-tempo-do - zé-gaio
    3. Dos lampeões a gás
    http://www.folhadaregiao.com.br/jornal/2005/02/13/cad206.php?PHPSESSID=3e93fd6dcea464b9cc9d216958541b0f
    4. Ph vale som de “F” , tempo das letras agas, H’s http://www.achando.info/agais
    5. Para uma zorra mais moderna veja o vídeo:Taca le pau nessa zorra seu Onivaldo: https://www.youtube.com/watch?v=qvydYzUOG1k
    Muito boas sugestões mas não rimam com pai, a palavra zagai rima.
    Existe a expressão zagai: http://www.sma.org.br/noticias/225

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  4. Muito bom, tanto a postagem do blog do Marco Haurélio, como as respostas do JJ e do Antonio viater, gostei muito!

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  5. Muito bom, tanto a postagem do blog do Marco Haurélio, como as respostas do JJ e do Antonio viater, gostei muito!

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  6. Olá gente tudo bem? Eu queria saber com quem posso pegar uma autorização para regravar essa musica

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