quinta-feira, 20 de março de 2014

Parabéns, Bráulio do Nascimento


Não poderia ser mais apropriado: no Dia Internacional do Contador de Histórias (ou Dia Mundial da Narração Oral), 20 de março, o eminente folclorista Bráulio do Nascimento, responsável pela catalogação do conto popular brasileiro e autor de vários estudos que abrangem a contística popular, o romanceiro e a literatura de cordel, completa 90 anos de muita iluminação.

Parabéns, professor!

Catálogo do conto popular brasileiro.


A extraordinária Luzia Teresa



No Dia Internacional do Contador de Histórias, comemorado hoje, 20 de março, homenageio aquela que foi, comprovadamente, a maior narradora de contos da tradição oral deste planeta. Luzia Teresa dos Santos (1911-1983), paraibana de Guarabira, narrou ao saudoso folclorista Altimar Pimentel impressionantes 242 histórias (ou "estórias", como ele grafava), divididas em cinco volumes, três deles publicados pela Thesaurus Editora, de Brasília, dois ainda lamentavelmente inéditos. 

No seu leito de morte, em um hospital de João Pessoa, esta extraordinária mulher, que jamais aprendeu ler e escrever, dizia ainda conhecer muitas outras histórias.


Lembrá-la neste dia 20 de março é o maior preito que posso fazer à sua memória. E também à memória do notável folclorista alagoano Altimar Pimentel (1936-2008), o maior coletor de histórias populares deste país. De sua recolha, destaco, além dos três volumes publicados de Estórias de Luzia Teresa, Estórias de Cabedelo, Contos Populares de Brasília e Estórias do Diabo, todos publicados pela Thesaurus Editora

domingo, 23 de fevereiro de 2014

As origens da canção Couro de Boi

Teddy Vieira, coautor de Couro de Boi

Na obra Música Caipira – as 270 maiores modas de todos os tempos, o jornalista José Hamilton Ribeiro, comentado a canção “Couro de Boi”, de Palmeira e Teddy Vieira, diz tratar-se de “uma fábula de família, com todo o jeito de ser algo imemorial, que passa de geração a geração”. E, mesmo sem ir além da especulação, ele está certo. Na França, no séc. XIX, Joseph Bédier, autor da versão literária de Tristão e Isolda, incluiu a história do velho que é expulso de casa pelo filho ingrato entre os fabliaux de sua terra. O professor Bráulio do Nascimento informa que o conto-tipo A Manta Partida (O Filho Ingratofigura no Livro dos Exemplos por ABC, de Sanchez Vercial, e no Espéculo de los Leigos, anteriores ao século XVI". O pai é abandonado pelo filho desnaturado numa montanha. Recebe deste uma manta, mas, antes que ele se vá,  o velho divide-a ao meio, recomendando-lhe que a guarde para a velhice, para quando o seu filho o trouxer para o mesmo local.

Nos Kinder-und Hausmärchen, dos Irmãos Grimm, a versão é O Filho Ingrato, na qual o filho esconde um frango assado do pai, já bem velhinho. O frango, por castigo, se transforma num asqueroso sapo que se agarra ao rosto do malvado, para nunca mais soltar. Mais próxima das versões brasileira, classificada como AT 980, é O Avô e o Netinho, também constante da célebre antologia dos Grimm. O velho é malquisto do filho e da nora, e, quando deixa cair uma tigela de sopa, as coisas só pioram. É-lhe oferecida outra tigela de madeira, simples e grosseira, aumentando mais ainda a humilhação. O netinho de quatro anos começa a juntar pedaços de madeira do chão e, indagado pelo pai, diz que está fazendo uma gamela “para dar de comer a papai e a mamãe quando eu for grande”.

No Brasil, foram recolhidas versões por Câmara Cascudo (em Natal) e Waldemar Iglésias Fernandez (em Piracicaba). O cancioneiro caipira que, como o cordel, bebe na fonte imaterial da tradição, conservou a versão em que a manta é substituída pelo couro de boi, comprovando o poder da pecuária, dando coloração local a um tema universal. Abaixo, a bela letra de Teddy Vieira e Palmeira:

Conheço um velho ditado

Que é do tempo do zagai:

Um pai trata dez filho,

Dez filho não trata um pai.


Sentindo o peso dos anos,

Sem poder mais trabalhar,

o velho peão estradeiro

Com seu filho foi morar.

O rapaz era casado

E a mulher deu de implicar:

Você manda o velho embora

Se não quiser que eu vá.

E o rapaz, coração duro,

Com o velhinho foi falar:


Para o senhor se mudar

Meu pai eu vim lhe pedir,

Hoje aqui da minha casa

O senhor tem que sair.

Leva este couro de boi,

Que eu acabei de curtir,

Pra lhe servir de coberta

Adonde o senhor dormir.


O pobre velho calado

Pegou o couro e saiu.

Seu neto de oito anos,

Que aquela cena assistiu,

Correu atrás do avó,

Seu paletó sacudiu,

Metade daquele couro,

Chorando, ele pediu.


O velhinho comovido

Pra não ver o neto chorando,

Partiu o couro no meio

E pro netinho foi dando.

O menino chegou em casa,

Seu pai foi lhe perguntando:

Pra que você quer esse couro

Que seu avô ia levando?


Disse o menino ao pai:

Um dia vou me casar,

O senhor vai ficar velho

E comigo vem morar.

Pode ser que aconteça

De nós não se combinar,

Esta metade do couro

Vou dar pro senhor levar.

Couro de Boi (Filho Ingrato) nas vozes de Tonico e Tinoco.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O macaco que pediu sabedoria a Deus

Ilustração de Maurício Negro

O macaco foi até onde estava Deus para Lhe pedir sabedoria.

Deus o recebeu, ouviu sua solicitação, mas em troca pediu que o bicho Lhe trouxesse uma xícara de leite de onça e três ovos de jacaré.

O macaco aceitou a proposta e foi para a mata esperar a melhor oportunidade de passar a perna na onça.

Quando a bicha se aproximou, ele trepou numa árvore e começou a tirar cipó. Cismada com aquilo, a onça lhe perguntou:

— Ô, amigo macaco, por que você está tirando tanto cipó?

— Então a amiga onça não sabe? Está vindo uma grande tempestade de vento, e quem não se amarrar bem forte será jogado no mar.

A onça, então, morta de medo, implorou:

— Já que o amigo é mais jeitoso, deve me amarrar numa árvore e depois se amarrar noutra.

O macaco mandou a onça levantar as patas dianteiras e amarrou com tanta força que ela mal se mexia. Em seguida, amarrou as traseiras e, sem que ela reagisse, ele tirou uma xícara de leite. Para terminar, mamou até se fartar e ainda deu uma surra na onça antes de ir embora.

Em cima da árvore, observando tudo, estava um sonhim. Assim que o macaco saiu, ele desceu e mamou na onça também. A onça ficou muito envergonhada por ter caído naquela armadilha.

Agora só faltava o macaco conseguir os ovos de jacaré. E lá foi ele, disposto, em direção ao rio, onde encontrou um jacaré chocando os ovos. O macaco, depois de cumprimentá-lo, disse:

— Amigo jacaré, embaixo da ponte está havendo uma festa de cabrito. Você não vai?

O jacaré se jogou na água e foi em busca da tal festa. Enquanto isso, o macaco apanhou três ovos e a xícara e foi à procura de Deus para entregar os presentes e receber , em troca, a sabedoria. Mas Deus, vendo o macaco chegar, foi logo dizendo:

— Macaco, não posso lhe dar sabedoria, pois você já é sabido demais!

Informante: Cassiano Fonseca (Maroto) - Igaporã, Bahia

Publicado em Contos folclóricos brasileiros (Paulus, 2010)


Reproduzido originalmente no blog Histórias em movimento.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Contos folclóricos brasileiros

Sirvo-me deste espaço, criado para divulgar a obra Contos e fábulas do Brasil, para apresentar meu primeiro livro de recolhas de histórias tradicionais, Contos folclóricos brasileiros (Paulus Editora). Lançamento em 2010, a obra já teve várias edições, foi selecionado para o Catálogo de Bolonha pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e selecionado para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), em 2012, e para o programa Minha Biblioteca, da Prefeitura de São Paulo, em 2011. As ilustrações são de Maurício Negro, que assina o projeto gráfico com Eduardo Okuno.

O texto a seguir é o que abre a coletânea.

Contos folclóricos brasileiros

A importância do conto folclórico


Os contos folclóricos reunidos nesta coletânea, mais do que o esforço de preservação das nossas tradições populares, são peças de raro brilho literário. Alguns encontram ressonância na Índia dos Vedas[1]; outros, no Egito dos faraós. Há, ainda, os que trazem retalhos da mitologia greco-romana ou de narrativas da Bíblia. Portanto, é impossível pôr em dúvida sua “ancianidade veneranda”, como costumava dizer mestre Câmara Cascudo[2]. Diversão para crianças, entretenimento para os adultos após o trabalho, o conto folclórico conserva, também, informações de hábitos, costumes, ritos e mitos aparentemente desaparecidos ou esquecidos.

Os contos de animais, aqui reunidos e identificados às fábulas, trazem um esquema bem conhecido dos contadores e ouvintes: a onça sempre personifica o vilão e é irremediavelmente derrotada pelo coelho, pelo macaco, ou até mesmo pelo bode. A raposa, símbolo da esperteza, é lograda pelo urubu ou traída por sua teimosia quando não aceita o conselho do macaco. Este animal é associado à prudência (algumas vezes) ou à esperteza (sempre). A nossa versão de A festa no céu apresenta um sapo inoportuno que bem mereceu o castigo imposto pelo gavião.


Leitores da obra dos Irmãos Grimm certamente reconhecerão, nos contos maravilhosos (de encantamento), a Cinderela (Aschenputtel) da famosa antologia dos alemães na Maria Borralheira que integra este trabalho. Cara-de-pau, narrativa que pertence à mesma família, é a versão brasileira da Pele de asno, de Charles Perrault, da Pele de bicho, dos Grimm, e da Bicho de palha, de Câmara Cascudo. Os dois contos citados fazem parte do ciclo da Gata Borralheira, universalmente difundido. Mais fácil ainda é enxergar em José e Maria as personagens Joãozinho e Mariazinha (Hansel e Gretel). Na nossa versão, há uma sequência que faz do herói (José) uma reencarnação popular de Perseu, o salvador de Andrômeda. Na literatura de cordel, a segunda parte desta história está presente no clássico Juvenal e o dragão, do grande poeta Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Guime e Guimar, que consta dos Contos populares do Brasil, de Silvio Romero – O homem pequeno –, é a clássica história da Filha do diabo, aqui retratado como um rei tão cruel quanto azarado. É um conto que lembra o ciclo mitológico de Jasão e Medeia, pois o herói só realiza suas tarefas mediante a intervenção mágica da amada. Em Grimm encontramos o mesmo motivo em Tamborzinho, embora neste conto a princesa seja prisioneira de uma bruxa.

Belisfronte se aproxima de A Bela e a fera, de Madame de Beaumont[3], mas possui um ancestral mais antigo: o conto Eros e Psiquê, que faz parte d’O asno de ouro, que o africano romanizado Apuleio escreveu no século II d.C. Os episódios de Belisfronte foram conservados, possivelmente na íntegra, pela transmissão popular: o pai faminto que oferece o filho à entidade benfeitora em troca de alimento; a convivência do herói com a companheira invisível e a perda motivada pela curiosidade ou violação de um tabu ou interdição; a busca da amada com a consequente ajuda dos animais, os auxiliares mágicos; o rei – ogre nas versões europeias – que tem a alma fora do corpo e, por isso, não pode ser morto. Esse rei é o soberano do Reino dos Confins, onde o herói encontrará a amada, que se esquecera completamente dele.

Os contos religiosos selecionados para este livro trazem desde o nascimento de Cristo, anunciado pelos animais, até as estórias onde São Pedro aparece como personagem cômica pagando sempre um alto preço pela desnecessária ou presunçosa teimosia. Ele é apresentado ora como glutão (A gulodice de São Pedro), ora como azarado (São Pedro e a questão das almas), acompanhando Jesus em suas andanças. Esses contos, que têm origem em evangelhos apócrifos ou em lendas pré-cristãs, são constituídos de elementos moralizantes, embora, em muitos casos, prevalece, puramente, o riso.

A coletânea ainda apresenta os contos novelescos, que trazem personagens dos contos maravilhosos envolvidos num contexto mais realista. A presença do maravilhoso, por vezes, resume-se apenas à crença na infalibilidade do destino. Este é o tema do conto A princesa e o filho da criada, que conserva remoto parentesco com o mito grego de Édipo, embora sem a carga trágica contida neste. Mesmo num conto desprovido do elemento sobrenatural, como Ingrata e Gemido, de nada adiantam os esforços do pai da moça para separá-la do amado. Na crença popular, as coisas acontecem porque, afinal, tudo já estava escrito.

Os contos jocosos (ou humorísticos) têm por objetivo provocar riso na audiência, embora um ou outro contenha alguma lição moralizante. Veja-se, por exemplo, A mentirosa, que encerra um sentido moral além da característica principal – o humor.

Os contos de fórmula, também são chamados lengalengas ou contos acumulativos. Os dois exemplos deste livro são conhecidos por suas inúmeras variantes. Mas, aqui, devem ser ressalvadas as características incomuns. Em A formiguinha, não há a neve que prende o pezinho da formiga, como nas variantes mais conhecidas do conto. O motivo de a formiga procurar sempre pelo mais forte deve-se ao fato de o Sol derreter a gordura que lhe foi aplicada no pé como curativo. Este conto é importantíssimo, pois reproduz em seu enredo a natural curiosidade infantil, que desencadeia a busca por respostas e conduz ao autoconhecimento, mesmo que a verdade expressa no final possa parecer cruel à primeira vista.

O rabo do macaco é outro conto amplamente divulgado. Esse macaco é diferente daquele dos contos de animais, pois, como a história se dá em cadeia, ele é apenas o elo entre os sucessivos episódios, ficando, portanto, numa função passiva.

Por último, foram reunidos os contos que não se enquadram numa classificação específica, mas que, por aproximação temática, podem ser relacionados entre os de exemplo. Reúnem desde o episódio inicial da famosa estória das Mil e uma noites, Ali-Babá e os quarenta ladrões (O olho maior que o corpo), até o embrião da lenda urbana da moça do cemitério (A namorada misteriosa). Ainda das Mil e uma noites, a História dos dois homens que sonharam, oriunda de um conto persa, que serviu de tema para O alquimista, de Paulo Coelho, reaparece no Ceará com o título O tesouro do matuto, registrado pelo poeta e folclorista Arievaldo Viana. O tema, como explica em nota o estudioso Paulo Correia, era conhecido na Pérsia (atual Irã) há cerca de 900 anos.

O conto folclórico na sala de aula

Todos os contos desta antologia foram colhidos diretamente da fonte mais pura: a memória popular. Resultam de um trabalho paciente, mas imprescindível. É um livro oferecido às crianças e aos jovens, como símbolo de esperança na preservação da nossa cultura, da nossa identidade. Mas também aos mais velhos, como sinal de agradecimento. Algumas histórias foram colhidas por ex-alunos, sob minha orientação, na época em que lecionava Língua Portuguesa no Colégio Joana Angélica, em Igaporã, sertão da Bahia. Por intermédio de dois deles, os gêmeos Lucas e Luan Flores, cheguei a Dona Jesuína, nascida em 1915, fonte importante para a efetivação deste trabalho.

O exemplo mostra que é possível a convivência da tradição mais genuína com as novas tecnologias. Devidamente orientado, o aluno das séries mais adiantadas pode pesquisar em sua comunidade, ou em sua família, histórias, lendas, adivinhas etc., numa pesquisa de campo que lhe abrirá as portas para um mundo novo e fascinante. Da boca para o ouvido, de geração a geração, a tradição é preservada. Das reuniões em volta da fogueira, em tempos recuados, às rodas de “contação” de estórias na sala de aula, o conto popular sobrevive à era tecnológica. As pessoas, aos poucos, vão redescobrindo a beleza da simplicidade naquilo que o estudioso alemão Heinrich Zimmer[4] define como “alimento espiritual dos povos”. E nessa troca – sim, troca, pois o hábito de contar estórias é mais do que a mera interação – todos saem ganhando.

Marco Haurélio





[1] Os Vedas são os quatro livros sagrados que formam a base da religião e da cultura da Índia e foram escritos por volta do ano 2000 a.C. O mais antigo dos quatro é o Rig Veda. Os outros, Yajur Veda, Sama Veda, e Atharva Veda, foram escritos depois.

[2] O potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) é considerado o maior folclorista brasileiro. Pesquisador da cultura popular, estudioso dedicado, deixou escritas obras fundamentais como Dicionário do Folclore Brasileiro (1952) e Contos tradicionais do Brasil (1946).

[3] Jeanne Marie Leprince, conhecida como Madame de Beaumont, nasceu em Rouen, França, em 1711, e morreu em 1780. Foi uma educadora voltada ao ensino das crianças. Mas o que a tornou conhecida foi a sua versão do conto de fadas A Bela e a fera, publicada em 1757 na revista Le Magasin des enfants (A revista das crianças), imortalizado em versões para o cinema
e no desenho animado produzido pelos Estúdios Disney em 1992

[4] 4 Heinrich Robert Zimmer era mitólogo e historiador da arte. Nasceu em 1890, em Greifswald, Alemanha, e morreu em 1943, nos Estados Unidos. Autor de As filosofias da Índia, A conquista psicológica do mal, entre outros.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Relação de contos do livro Contos e Fábulas do Brasil

Contos de Animais

1. O cavalo e os macacos
2. O macaco e a onça
3. A onça, o coelho e o jacaré
4. A onça e o gato
5. A botina do amigo bode
6. O bem se paga com o bem
7. O macaco e a velha
 8. A festa no céu
9. O curiango e a andalua
10. O sapo boêmio

Contos Maravilhosos

11. A menina e o Velho do Surrão
12. O cavalo encantado
13. A fazenda assombrada
14. O homem que tentou enganar a Morte
15. O noivo defunto
16. A Serpente Negra
17. O príncipe Cavalinho
18. A Moura Torta
19. Angélica mais afortunada (O príncipe Teiú)
20. O príncipe Cascavel
21. Maria Borralheira
22. O corcunda e o zambeta
23. O Diabo e o andarilho
24. A afilhada de Santo Antônio
25. O compadre rico e o compadre pobre
26. A princesa de chifres
27. O gato preto
28. O galo aconselhador

Contos Religiosos

29. São Brás
30. Nossa Senhora e o favor do bêbado
31. São Pedro tomando conta do tempo
32. O ladrão que tentou roubar Jesus
33. Jesus e as duas mulheres
34. A madrasta malvada
35. Jesus, São Pedro e os jogadores
36. A mãe de São Pedro
37. O gato preto e a mulher maltratada
38. Os dois lavradores
39. História do teimoso
40. São Longuinho

Contos Novelescos

 41. Bertoldo e o rei
42. Camões e os bois do rei
43. Toco Preto e Melancia
44. Os três conselhos sagrados
45. O Urubu-Rei
46. O testemunho das gotas da chuva

Contos do Ogre (Diabo) Estúpido

47. Pedro Malazarte e o rei
48. Com menino nem o Cão pode!
49. A idade do Diabo

Contos Jocosos (Facécias)

50. A preguiçosa e o cachorro
51. A mulher preguiçosa
52. Camões e a burra
53. O urubu adivinhão
54. Presepadas de Camões
55. O menino e o padre
56. O preguiçoso

Contos de Fórmula (ou acumulativos)

57. O gato e a raposa
58. A coca

Contos não Classificados

59. A sogra perversa
60. Adão e Eva
61. O ingrato
62. O negociante
63. O caçador
64. A mendiga
65. O bicho Tuê e o grilo
66. O macaco, o vaqueiro e a onça
67. O gavião e o urubu
68. O homem que foi para a guerra
69. A Mãe d’Água do São Francisco

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A divisão e classificação do livro foram feitas pelo estudioso português Paulo Correia, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Obedecem ao Sistema Internacional ATU (Aarne-Thompson-Uther).

domingo, 8 de setembro de 2013

A adivinha do amarelo

Ilustração de Santa Rosa. In Sílvio Romero. Contos populares do Brasil
Um rei tinha uma filha tão inteligente que decifrava imediatamente todos os problemas que lhe davam. Ficou com essa habilidade, muito orgulhosa, e disse que se casaria com o homem que lhe desse uma adivinhação que ela não descobrisse a explicação dentro de três dias. Vieram rapazes de toda parte e nenhum conseguiu vencer a princesa que mandou matar os candidatos vencidos.

Bem longe da cidade morava uma viúva com um filho amarelo e doente, parecendo mesmo amalucado. O amarelo teimou em vir ao palácio do rei apresentar uma adivinha à princesa, apesar de rogos de sua mãe que o via degolado como sucedera a tantos outros.

Saiu ele de casa trazendo em sua companhia uma cachorrinha chamada Pita e um bolo de carne, envenenado, que lhe dera sua própria mãe. Andou, andou, andou, até que desconfiando do bolo o deu à Pita. Esta morreu logo. O amarelo, muito triste, jogou a cachorrinha no meio do campo e os urubus desceram para comê-la. Sete urubus morreram também. O amarelo com fome, atirou com uma pedra em uma rolinha, mas errou e matou uma asa branca. Apanhou-a e sem deixar de andar ia pensando como podia comer sua caça quando avistou uma casinha. Era uma capela abandonada há muito anos. O amarelo entrou e aproveitando a madeira do altar fez uma fogueira e assou o pássaro, almoçando muito bem. Ao sair, viu que descia na água do rio um burro morto, coberto de urubus. Estando com sede, encontrou um pé de gravatá, com água nas folhas e bebeu a fartar. Quase ao chegar à cidade reparou em um jumento que escavava o chão com insistência. O amarelo foi cavar também e descobriu uma panela cheia de moedas de ouro. Chegando à cidade, procurou o palácio do rei e disse que tinha uma adivinhação para a princesa. Marcaram o dia, e o amarelo, diante de todos, disse:

Saí de casa com massa e Pita
A Pita matou a massa
E a massa matou a Pita
Que também a sete matou
Atirei no que vi
Fui matar o que não vi
Foi com madeira santa
Que assei e comi
Um morto vivos levava
Bebi água, não do céu
O que não sabia a gente
Sabia um simples jumento
Decifre para seu tormento

A princesa pediu os três dias para decifrar e o amarelo ficou residindo no palácio, muito bem tratado. Pela noite, a princesa mandou uma criada sua, bem bonita, tentar o amarelo para que lhe dissesse como era a adivinhação. O amarelo compreendeu tudo e foi logo dizendo:

- Só direi se você me der a sua camisa.

Vai a moça e deu a camisa ao amarelo, que contou muita história mas não explicou a adivinhação. A princesa, vendo que a criada nada conseguira, mandou a segunda e houve a mesma cousa, ficando o amarelo com outra camisa. Na última noite, a princesa procurou o amarelo para saber o segredo. O rapaz pediu a camisa e a princesa não teve outro remédio senão a entregar. No outro dia, diante da corte, a princesa explicou a adivinhação:

- Massa era o bolo que a cachorra Pita matou porque comeu e foi morta pelo bolo, matando envenenados os sete urubus. A rolinha escapara da pedrada mas a asa branca morrera sem que o caçador a tivesse visto. Assou-a com madeira que guardara a hóstia santa. Um cadáver de burro levava, rio abaixo, uma nuvem de urubus vivos. A água que se conservava entre as folhas do gravatá, matara a sede do amarelo. O que não sabia o povo inteligente, sabia um jumento que cavava ouro ao pé de uma árvore.

Era tudo. Bateram muita palma, mas o amarelo disse logo:

- O fim dessa adivinha é fácil e eu vou dizer logo,
antes que morra degolado!

- Quando neste palácio entrei
Três rolinhas encontrei
Três peninhas lhes tirei
E agora mostrarei…

E foi puxando a camisa da primeira criada e mostrando. Fez o mesmo com a da segunda. Quando tirou a camisa da princesa, esta correu para ele, dizendo:

- Não precisa mostrar a terceira pena! Eu disse a adivinhação porque você me ensinou, e me ensinou porque é meu noivo…

Casaram e foram muito felizes.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil)




Fonte: Jangada Brasil.