quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Novo livro de Clara Haddad, a Sherazade brasileira


Clara Haddad anuncia que está no Brasil, onde ministrará cursos e oficinas e apresentará seu novo livro A Narradora de Histórias e outros contos de encantar

Tive a  a sorte de ler, antes de o livro ser publicado. Isto se deveu ao convite honroso, que me fez a Clara, para escrever o prefácio da obra, do qual adianto um trechinho. 

As histórias e a narradora

O conto popular precisa ser “velho na memória do povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nas memórias orais”, ensinou-nos mestre Luís da Câmara Cascudo, no prefácio de seu livro dedicado a este gênero da oralidade, Contos tradicionais do Brasil. Boa parte dos contos que ouvimos vem da infância da humanidade, sendo alguns contemporâneos dos povos que se estabeleceram às margens do Nilo ou do Eufrates, na aurora das civilizações egípcia e mesopotâmica. Os contos refletem mitos e ritos de outrora, recordam velhos e abandonados hábitos, rememoram sistemas jurídicos e costumes desaparecidos nas brumas de um tempo que longe vai. Alguns destes contos velhos, correntes nas águas da oralidade de vários povos e lugares, foram selecionados para compor esta antologia por Clara Haddad, a Sherazade brasileira que viaja o mundo nas asas da tradição, refazendo, muitas vezes, os caminhos das histórias de seu vasto repertório.

A Narradora de Histórias e outros contos de encantar reúne oito contos tradicionais, divulgados em países como Líbano, Índia, Espanha, Portugal, França e, claro, Brasil. A origem dessas histórias é imprecisa, mas versões e variantes podem ser encontradas numa vasta área que vai do Japão à Irlanda, irradiando-se pelo continente americano. A autora, que entende que a matéria dos contos é tão sutil quanto a dos sonhos, inicia a sua jornada com uma história exemplar: O sonhador. Conto que pertence à seção de “Acasos felizes”, do catálogo internacional ATU, é a História dos dois que sonharam do livro das Mil e Uma Noites, que Jorge Luís Borges incluiu em seu Libro de sueños, e na qual Paulo Coelho se inspirou para escrever o best-seller O alquimista. Publiquei uma versão, O tesouro do matuto, que me foi contada pelo poeta Arievaldo Viana, no livro Contos folclóricos brasileiros. O cenário é bem brasileiro, o interior do Piauí, onde um homem pobre, que possui apenas um casebre e um bode velho que pinoteava sobre um lajedo, larga-se pelo mundo em busca de um tesouro com o qual sonhara e que estaria na boca de um sapateiro. Um remendão, de uma cidade distante, sabendo de sua demanda, lhe dirá que também sonhou com um tesouro, mas este estava enterrado sob um lajedo no qual um bode velho pinoteava. O homem retorna e encontra o tesouro debaixo do dito lajedo.

Lançamento: O Conto dos Contos (Nova Alexandria)





Em boa hora a Editora Nova Alexandria anuncia, no próximo sábado, a partir das 16h, em sua sede, o lançamento do Pentameron (O Conto dos Contos), obra-prima de Giambattista Basile, publicada entre 1634 e 1636, uma das mais importantes coletâneas de contos de fadas do mundo, igualmente relevante para estudiosos da literatura e do folclore. O autor da tradução, Francisco Degani, virá de Santa Catarina, onde reside, especialmente para o lançamento. Abaixo, um trecho da apresentação que eu, orgulhosamente assino.

O Pentameron no Brasil

São muitas as edições das obras dos Irmãos Grimm em português (completas, compactas, adaptadas, mutiladas) para todos os públicos e paladares. Não se diga o mesmo de coletâneas mais antigas e raras, dos povos mediterrânicos, em especial as da Itália, terra de abundante colheita: Le piacevoli notti, de Giovanni Francesco Straparola, sobre quem pouco se sabe, ou do Pentamerone, de Giambattista Basile, para ficarmos apenas nos contos populares italianos e suas versões literárias dos séculos XVI e XVII. Embora não fossem coletores, no sentido moderno do termo, não há dúvidas de que ambos, Straparolla e Basile, ouviram muitas das estórias da oralidade, adaptando-as conforme as convenções vigentes em cada época. Straparola, cujo nome, que parece ser um apelido, significa “o que fala demais”, é uma personagem um tanto misteriosa. No Brasil, apenas a Landy Editora lançou uma versão incompleta das Piacevoli notti, traduzidas como Noites agradáveis, por Renata Cordeiro, em 2006. Do Conto dos Contos (posteriormente chamado também de Pentameron), lamentavelmente, não havia tradução para o português. Quem quisesse acessar a obra-prima de Giambattista – ou Giovan Battista – Basile teria de recorrer a edições estrangeiras.

Para nosso gáudio, agora, temos em mãos, vertida para o português, uma das obras mais importantes do barroco italiano. A iniciativa, cujo valor histórico e cultural não pode ser mensurado, coube a Francisco Degani, tradutor de Pirandello e Manzoni, que foi-se abeberar do dialeto de Nápoles do tempo de Basile, cotejando-o com o italiano moderno, seguindo as lições do mestre Benedetto Croce, que assina o prefácio da clássica edição italiana. As marcas da oralidade, o vozerio das ruas e a villanella dos campos, o cheiro dos mercados e das vielas, o calão dos portos, os longos diálogos que, por vezes, parecem monólogos, pontuados por anexins, metáforas e frases de efeito, tudo é parte de um cortejo mágico em que ressoa forte a poesia do povo, a poesia da vida.

O quê? Lançamento do livro O Contos dos Contos (Pentameron)
Onde? Editora Nova Alexandria, Rua Engenheiro Sampaio Coelho, 111 - Ipiranga (próximo ao Museu da Independência) 
Quando? Sábado (a partir das 16h)

sábado, 28 de julho de 2018

DO EGITO AO SERTÃO: METAMORFOSES DA GATA BORRALHEIRA


Cinderella. John Everett Millais (1891)


Cinderela (ATU 510A) é, sem dúvidas, o conto popular mais difundido no mundo. Charles Perrault, com sua Cendrillon, e os Grimm, com Auschenputtell, apenas difundiram as versões mais conhecidas da história. É a Gata Borralheira da tradição oral de Portugal, na versão de Consiglieri Pedroso, ou A enjeitada, registrada por Adolfo Coelho. A variante dos Irmãos Grimm que mais se aproxima da nossa estória é A senhora Holle, que se restringe apenas à primeira parte, sem príncipe nem casamento. A heroína é gratificada com uma chuva de ouro pelos serviços prestados à Senhora Holle, personificação da natureza e do mundo subterrâneo (infernal, Hell), e a invejosa é punida com um banho de pez, que nunca lhe sairá da pele. O galo anuncia a ventura da primeira e o castigo da segunda, como em algumas variantes brasileiras.

Recolhi três versões, todas sob o título Maria Borralheira, além de variantes com os subtipos “Pele de Burro (Asno)” (ATU 510B), Cara de Pau, na versão baiana que recolhi, Bicho de Palha, na de Câmara Cascudo; e Menina Boa e Menina Má, da qual registrei uma versão, inédita, O Bicho de Sete Cabeças (ATU 480AAs meninas e o diabo numa casa estranha). A vaquinha, auxiliar mágico da heroína, que simboliza a alma da mãe da menina — trata-se de uma órfã —, encarna o animal protetor, resquícios da Isis egípcia em seu aspecto lunar. O sacrifício do animal, por imposição da madrasta, faz com que a roda da fortuna gire a favor da heroína, propiciando seu encontro com as fadas. O sapatinho de ouro é reflexo de um antigo rito matrimonial conservado na narrativa popular, que faz lembrar o mito da cortesã grega Ródope que, posteriormente, desposa o faraó do Egito.

A contrapartida masculina, para mim, é o conto de “Goldener”, o João Ferrugem, dos Irmãos Grimm, ou O Anel de Bronze, o belo e, por vezes, cruel conto de fadas da coleção de Andrew Lang. Registrei, recentemente, O Príncipe-Pastor (ATU 314) com elementos do ATU 326 (O jovem que queria saber o que era ter medo). O conto do rapaz careca, uma óbvia variante, que Silvio Romero registrou, de possível origem oriental, já aparecia nas “Loucuras de Tristão”, em que, sob disfarce hediondo, o grande herói dos romances bretões, tentava se aproximar de sua amada, Isolda. O herói dourado, ora exuberante, ora repulsivo, é um avatar dos mitos solares, cujos mistérios, ligados à morte e à ressurreição, isto é, às estações do ano e aos ciclos da vida, estão em parte preservados no nosso conto.

NOTA: O texto acima serviu de base para o quinto encontro do grupo de Estudos Viagem de Retorno ao País da Infância, ocorrido sexta, 27 de julho, na Casa Tombada. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A Jornada do anti-herói: a sátira reparadora



Capa do clássico folheto Proezas de João Grilo,
de João Ferreira de Lima (Tupunanquim)

O nosso grupo de estudos na Casa Tombada – Viagem de Retorno ao País da infância – caminha para o terceiro encontro. Nas duas primeiras jornadas, abordamos facetas de contos maravilhosos como “Belisfronte”, “O Mestre-Sala”, “O Reino da Água Azul”, “José e Maria” e “Guime e Guimar”, todos de minha recolha (à exceção do terceiro, da faina de Djanira Feitosa). No nosso terceiro encontro, A Jornada do Anti-Herói: a sátira reparadora, porém, cederemos espaço à subversão. Melhor dizendo, trataremos de um personagem compósito, presente na tradição oral de todos os povos da Terra: o anti-herói. Ou seja, o herói às avessas. É o Corvo, dos contos esquimós, Exu, nos mitos iorubas, Hermes, em trajes de deus trapaceiro, na Grécia Antiga, e, de certo modo, Ulisses e Sísifo.

Nos contos jocosos e contos do ogro estúpido, ele aparece sob vários nomes, o maior comum deles, Pedro Malazarte (ou Malasartes). Também pode ser chamado de João Grilo, Bertoldo, e também de Camões (Camonge) ou Bocage (Bocais). Como os dois grandes poetas portugueses se tornaram personagens de facécias, algumas de caráter fescenino, não se sabe bem, mas certo é que, personagens incomuns, ainda em vida, reúnem em torno de si um vasto anedotário e, à medida que o tempo passa, acontecimentos reais ou inventados são incorporados à sua “biografia”, num processo natural de convergência. Till Eulenspiegel na Alemanha, Jean Machepied na França, Pedro de Urdemales na Espanha, Maestro Grillo na Itália, Nasrudim na Turquia, o personagem que vinga, por meio da astúcia, as injúrias e injustiças contra os desfavorecidos, tem mil e um nomes e número equivalente de truques. O contraponto feminino do trickster é a Maria Sabida, Maria Sutil [The Clever Peasant Girl, ATU 875], mais cerebral e menos cruel, respondendo com sagacidade ao despotismo real (que é, também, o despotismo masculino). É, portanto, uma legítima irmã de Sherazade.
Nasrudin (miniatura do séc. XVII)

Por se tratarem, muitos deles, de personagens também da literatura de cordel, pela primeira vez em nosso grupo recorreremos aos folhetos de feira e falaremos, ainda que de raspão, do Auto da Compadecida, a premiada peça de Ariano Suassuna, cujos alicerces estão fincados na poesia popular. Por isso, mostraremos trechos dos cordéis O Cavalo que Defecava Dinheiro, O Dinheiro e O Castigo da Soberba, os dois primeiros de Leandro Gomes de Barros, e o último atribuído a Silvino Pirauá de Lima.

Boa jornada!


P. S.: O próximo encontro ocorrerá dia 18 de maio, das 10h às 13h, na Casa Tombada (Rua Ministro Godoy, 109, Perdizes). 

domingo, 4 de março de 2018

100 ANOS COM LEANDRO



Leandro em linoleogravura de Jô Oliveira
Há exatos cem anos, num 4 de março como este, morria no Recife, Leandro Gomes de Barros, o mestre maior da literatura de cordel brasileira. E o grande bardo saiu de cena cedo, aos 53 anos. Saiu de cena é modo de dizer, pois o paraibano Leandro, mesmo após a sua morte, continuou a ser o mais lido e reverenciado poeta popular do Brasil. Mais do que isso, forneceu temas para os cantadores da época, fossem eles cegos de feira ou repentistas de nomeada. Era o tempo em que os baiões eram fechados com os romances de Leandro e de contemporâneos seus, como Silvino Pirauá, José Galdino da Silva Duda (o Zé Duda do Zumbi), Francisco das Chagas Batista e João Melchíades, entre outros.

E eu tive a ventura de conhecê-lo ainda na infância. Aos sete anos já sabia de cabo a rabo, de fio a pavio, a História de Juvenal e o Dragão. Sei-a até hoje e, em 2015, quando por ocasião da celebração dos 150 anos de nascimento do grande poeta, estive em Pombal a convite da professora Ione Severo, juntamente com outros poetas e pesquisadores, declamei mais da metade do poema sobre as ruínas da casa de Leandro, no sitio Melancia, hoje município de Paulista (PB). Minha avó Luzia Josefina batizou de Provedor um de seus cachorros. Provedor, Ventania e Rompe-Ferro eram os cães encantados, auxiliares mágicos do herói Juvenal. Mas sua presença em minha vida deu-se pela leitura de outras obras, como a Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, a História da Donzela Teodora, O Cachorro dos Mortos, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, Os Sofrimentos de Alzira, Cancão de Fogo e, principalmente, A Força do Amor. Perdi a conta de quantas vezes li e reli a desventurada história de Alonso e Marina. De quantas lágrimas verti em vários momentos deste que considero o maior monumento da poesia bárdica do Nordeste. Se Alfred Tennyson chamou Victor Hugo de “senhor das lágrimas humanas”, no cordel este título cabe a Leandro.

Depois vieram O Cavalo que Defecava Dinheiro e O Testamento do Cachorro (O Dinheiro), de que Ariano Suassuna se serviu para compor a parte farsesca do Auto da Compadecida; a História de João da Cruz, o mais belo romance em versos sobre o motivo do julgamento celeste, um legado do Antigo Egito que prevaleceu vivo em nosso imaginário; e a História do Boi Misterioso, poema síntese, que parte dos romances em versos, espargidos desde o século XVIII, filho legítimo da civilização do couro de que falava Capistrano de Abreu. Pois bem, neste dia 4 de março, eu, ingênuo, esperava encontrar na Internet muitas referências sobre o Gil Vicente brasileiro, poeta-síntese, poeta-ponte, poeta desbravador, razão de ser e de existir da literatura de cordel. Mas, não. Nem o tal jornalismo cultural, que não chamarei de piada, pois piada também é coisa séria, se deu conta da data. Não tem problema. Sem precisar dessa gente, o grosso da obra de Leandro vem sendo reimpresso há mais de 120 anos. Leandro Gomes de Barros vive em nós. E isso basta.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Por que um grupo de estudos sobre o conto popular?

Avó e neto.Ilustração de Luciano Tasso. 

Em menino, no descambar do dia, minha grande diversão era ouvir, contadas por minha avó Luzia Josefina, as velhas histórias que se renovavam a cada audição. O mais incrível é que ela, à semelhança de outra Luzia, a Luzia Tereza da Paraíba, conservava em seu acervo imemorial os contos maravilhosos em maior grau. Lamentavelmente, não consigo relembrar todos, mas, graças a meu pai, Valdi, e a minha tia Isaulite (Lili), fixei boa parte nos livros Contos Folclóricos Brasileiros e Contos e Fábulas do Brasil. Mais tarde, o contato com a obra dos Irmãos Grimm gerou estranhamentos, perplexidade e, por último, instigou-me a buscar os pontos de aproximação. “Belisfronte”, por exemplo, que mais tarde foi vertido por mim para o cordel, era muito semelhante a Eros e Psiquê, o conto mítico de Apuleio, lido inicialmente não no “Asno de Ouro”, mas na famosa Antologia de Thomas Bulfinch, aqui batizada como O Livro de Ouro da Mitologia.

O fio de Ariadne, no entanto, só me veio mais tarde, com a leitura dos Contos Tradicionais do Brasil, de Luís da Câmara Cascudo, livro desconcertante por conta de suas notas de assombrosa erudição. Quando fixei os contos de minha recolha, iniciada entre, no sertão baiano, e os apresentei ao professor português José Joaquim Dias Marques, em João Pessoa, por ocasião de um encontro internacional de cordel em 2005, para o qual fomos convidados, ele, gentilmente, prometeu mostrá-los a amigos, que eram, naturalmente, Isabel Cardigos e Paulo Correia, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Faro, Portugal. E foi com incontida alegria que recebi, cerca de dois meses depois, todos os contos classificados de acordo com o Sistema ATU ou outros similares, com notas assinadas pelo professor Paulo Correia. As notas e a classificação foram publicadas ao final dos livros, quando estes vieram a lume.

Já são seis livros voltados ao conto de tradição oral, todos recolhidos da fonte de Mnemósine, e mais dois inéditos, além de artigos que pretendo enfeixar em um ou mais volumes. Em minha biblioteca, reservei um lugar especial para os contos tradicionais (coletânea e estudos), muitos buscados entre outros povos, de comprovada e venerável ancianidade. Por isso, quando Giuliano Terno me convidou para montar um grupo de estudos na Casa Tombada, ecos de mil vozes se fizeram ouvir. Como aglutiná-los num único caçuá? Como, usando um termo recorrente no meio universitário, esse Saturno moderno, fazer um recorte que possa abarcar memórias e afetos, sem hierarquia, sem escala de valores, sem forçada erudição ou fingida espontaneidade? Foi o que tentei fazer com a proposta que enviei, Viagem de Retorno ao País da Infância, e que o Giuliano recebeu com comovente e generosa empolgação.

Para encerrar, aviso que, apesar do nome pomposo “grupo de estudos”, levarei à Casa Tombada tão somente a mim mesmo, incompleto e imperfeito, mas movido pela mesma curiosidade menina dos tempos da candeia a querosene, nos quais os contos afugentavam os medos noturnos, ou nos convidava a enfrentá-los, e prenunciavam o parto do dia. Contos de Lua e de Sol, mergulho no inconsciente, cavalo silente a correr por reinos que vivem no mais profundo de nossa psique.  

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Grupo de estudos sobre o conto popular


"Moura Torta", ilustração de Luciano Tasso. 

VIAGEM DE RETORNO AO PAÍS DA INFÂNCIA

Há algum tempo venho sendo sondado sobre a possibilidade de formação de um grupo de estudos sobre o conto popular. Sempre vi a ideia com muitos bons olhos e agora, a convite de Giuliano Terno, coordenador da Casa Tombada, finalmente, daremos início aos trabalhos. Percursos, sobrevivências mitológicas, teorias do conto, principais coleções, constantes psicológicas, ritos de passagem, o dogma da fraternidade universal, tudo isso fará parte do pacote. Formaremos um grupo de estudos permanente, ou melhor, uma caravana que, a depender na necessidade, também pode ser o navio de Simbad (o aguadeiro e o marujo) ou a corda que levou à Lua o Barão de Münchausen. 
EMENTA
Contar histórias tem sido, ao longo das eras, um assunto sério e também um ameno entretenimento. Ano após ano, histórias são inventadas, escritas, devoradas e esquecidas. Que acontece com elas? As poucas que sobrevivem e que, como sementes dispersas, o vento esparge durante gerações, engendram novos contos e proporcionam alimento espiritual a inúmeros povos. (Cada poeta acrescenta algo da substância de sua própria imaginação e as sementes, nutridas, revivem.”
(Heinrich Zimmer)
O que se propõe para este grupo de estudos é uma viagem de retorno ao país da infância. Tal viagem, segundo o mestre dos estudos etnográficos no Brasil, Luís da Câmara Cascudo, era possível por meio dos contos populares, nosso “primeiro leite intelectual”. Contadas por incontáveis gerações, as velhas histórias guardam informações sobre ritos e mitos de outros tempos. Também guardam informações e denunciam hábitos e costumes que, não fosse a atmosfera mágica que os envolve, pareceriam estranhos aos nossos olhos e à nossa sensibilidade. Boa viagem!

  1. Contar histórias, um costume universal                                                                                
1.2 Por que contamos histórias?

1.3 A jornada do herói (do mito ao conto de magia)
1.4 A jornada do anti-herói (a sátira reparadora)
1.5 Contos são mitos degradados?
1.6 De Ulisses ao Barão de Munchausen: o mentiroso necessário

  1. Quem conta um conto aumenta o encanto

2.1 Cinderela: do Egito ao sertão
2.2 Eros e Psiquê através dos tempos
2.3 Narrativas pias populares (contos religiosos)
2.4 Recompensa e punição nos contos populares
2.5 O simbolismo do Pavão Misterioso

BIBLIOGRAFIA
ALCOFORADO, Doralice. O conto mítico de Apuleio no imaginário baiano. In: Estudos em literatura popular. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2004.
AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Hucitec, 1976. ARAUJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 3ª ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2007.
BRANDÃO, Théo. Seis contos populares do Brasil. Maceió: MEC-SEC-Funarte, Instituto Nacional do Folclore, ufal, 1982.
CALVINO, Ítalo. bulas italianas. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CARDIGOS, Isabel; CORREIA, Paulo. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Com as versões análogas dos países lusófonos). CEAO da Universidade do Algarve / Edições Afrontamento: Portugal, 2015.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo:
Global, 2004.
COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Portugal: Compendium, 1996.
GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
GUIMARÃES, Ruth. Lendas e fábulas do Brasil. São Paulo: Cultrix, 1964.
HAURÉLIO, Marco. Contos e fábulas do Brasil. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.
_____________. Contos folclóricos brasileiros. Classificação e notas: Paulo Correia. São Paulo: Paulus, 2010.
_____________. O príncipe Teiú e outros contos brasileiros. São Paulo: Aquariana, 2012.
NASCIMENTO, Bráulio do. Estudos sobre o conto popular. São Paulo: Terceira Margem, 2009.
PIMENTEL, Altimar. Estórias de Luzia Tereza. Brasília: Thesaurus, 1995.
PROPP, Vladimir. As raízes históricas do conto maravilhoso. 2. ed. Tradução de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1985.
XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas pias populares. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1967.

Número de participantes: 15.
Valor por encontro: R$ 130,00
Data e horário: Sextas-feiras, das 10h às 13h
23/3, 13/4, 18/5, 22/6, 27/7, 17/8, 21/9, 19/10, 9/11, 7/12