quarta-feira, 22 de junho de 2011

A Mãe d'Água: um conto universal

O segredo de Melusina revelado, do Le Roman de Mélusine, 
de Guillebert de Mets, cerca de  1440

Reproduzo, agora, o conto A Mãe d’Água, do livro Lendas e fábulas do Brasil, de Ruth Guimarães. Trata-se, claramente, de uma versão literária de um conto recolhido por João da Silva Campos, da antologia Contos e fábulas populares da Bahia. Replico, ainda, a nota que fiz para o conto A Mãe d’Água do São Francisco, história que fecha o livro Contos e fábulas do Brasil e contempla igualmente a presente versão.

Era uma vez um homem muito pobre que tinha uma boa plantação de melancias na beira do rio. Porém, quando estavam as pesadas frutas maduras, e ao calor se via o coração vermelhando, ele não podia colher uma só. Desapareciam de noite. Ele procurava os rastros do ladrão, nada encontrava na terra fofa. "Deve ser algum canoeiro, que vem pela água". Acreditando nisso, escondeu-se por trás de umas moitas e passou parte da noite espiando. Nada viu na primeira noite, nem na segunda. Na terceira, ouvindo um leve rumor para os lados do rio, foi devagarinho até lá, e viu uma moça linda como os amores, de compridos cabelos verdes, e olhos d’água profunda, colhendo as melancias todas. Foi atrás dela, bem devagarinho, pé por pé, e agarrou-a.

– Ah! Danada – gritou. – É você quem carrega as minhas melancias. Pois agora você vai para minha casa, para se casar comigo.

– Eu não – gritava a moça. – Eu não.

Mas o homem era forte e ela foi.

– Bem feito para mim, que roubava as frutas – disse ela.

– Você então se casa comigo? – perguntou o homem,
 embevecido com a sua beleza.l


– Caso. Mas tem uma coisa.

– O que?

- Nunca arrenegue de gente debaixo d’água.

– Pois sim. Nunca arrenegarei.

Foram para a cidade, num domingo, para se casar. Juntou gente para ver moça, tão linda, com seus cabelos verdes, e olhos de água verde, tão linda! Entrou na casa do pobre e com ela o milagre. E com ela a fartura. O melancial deu de arrebentar em melancias de arroba. O arrozal pendia de espigas enormes. Nas laranjeiras era preciso pôr escoras, pois vinham abaixo com as laranjas. E as vacas tinham bezerros formosos. As ovelhas, tanta lã que as maçarocas tiradas cada verão deram um fabuloso lucro. E era tudo assim. O homem fazia um negócio, ganhava um mundo de dinheiro. Comprou escravos, comprou terras, aumentou as plantações. Adquiriu mobílias, louças, jóias, roupas. O gado inumerável, dinheiro de não se acabar, escravaria, tudo que tinha se multiplicado. Tudo que não tinha lhe veio ter às mãos. Corria tudo muito bem, quando a moça começou a se desleixar. Andava pela casa com os vestidos esfrangalhados, emaranhada a bela cabeleira. Como não tomava conta de nada mais, os escravos também nada faziam. E era uma sujeira de dar nojo, pela casa toda. Os filhos de carinha suja choramingavam de fome. O marido pedia:

- Mulher, tome conta da casa. O que foi isso? Você era tão prestimosa…

A moça nem respondia. E a casa e ela e os filhos continuavam na mesma.

Um dia, o homem, arreliado, falou:

- Arre, também, que já estou perdendo a paciência. Arrenego de gente debaixo d’água.

A moça, que estava sentada, levantou-se mais que depressa e foi andando em direção ao rio, ao mesmo tempo que cantava:

"Zão, zão, zão, zão
Calunga,
Olha o munguelendô,
Calunga,
Minha gente toda
Calunga
Vamos embora,
Calunga"

O homem gritou:

- Não vai lá não, mulher.

E ela, sem olhar para trás, ia andando. Atrás dela foram saindo os filhos, os escravos, o pessoal jornaleiro das roças:

"Zão, zão, zão, zão
Calunga,
Olha o munguelendô,
Calunga,
Meus bichos todos
Calunga
Vamos embora,
Calunga"

Com vagaroso passo foram os rebanhos se dirigindo para o rio. Foram as vacas de leite, os bois de carros, as ovelhinhas brancas de neve, cabras e cavalos e burros, bestas de carga, até o cachorrinho, até o gato, até a tartaruguinha com que as crianças brincavam, e o papagaio. Alcançaram a Mãe d’Água, passaram adiante dela, foram andando para o rio e entrando n’água como se pisassem no terreno limpo, e desaparecendo aos poucos, sem alarido.

"Zão, zão, zão, zão
Calunga,
Olha o munguelendô,
Calunga,
Meus "terens" todos
Calunga
Vamos embora,
Calunga"

- Não vá embora não, minha mulher – o homem gritava.

Os móveis, as jóias, a louça, os baús, começaram a pular em direção ao rio. Até a casa se sacudiu e pulou. Cercados, telheiros, galinheiros, cercas de divisa, plantações, foi tudo engolido pelas águas. Dentro em pouco, a moça, cantando, mergulhou também. Quando o homem viu, estava sozinho, na margem tranqüila, com as suas roupas de pobre, e na terra somente havia uma plantaçãozinha reles de melancia.

Ele foi viver de novo pobremente, de vender as frutas, mas também nunca mais a Mãe d’Água buliu na sua roça.

Nota: Câmara Cascudo registrou em Natal (RN) O marido da Mãe d’Água, ouvido do pescador Antônio Alves, no qual o pacto, como no nosso conto, é rompido pela violação da promessa feita pelo cônjuge de nunca arrenegar da gente da água. Na Europa, a tradição do casamento sobrenatural alimenta a lenda de Melusina, viva durante muito tempo na tradição oral do oeste da França. Mas a popularização definitiva veio no século XV, quando Jean d’Arras deu forma literária à lenda, abaixo resumida:

  O conde Aymery de Poitiers, suserano de Basse-Marche, perseguia um monstruoso javali, auxiliado por seu sobrinho Raymondin, na floresta de Colombier. Os dois acabam se separando. Quando reencontra o tio, Raymondin percebe que ele está sendo atacado pelo javali. Atira a lança, matando a fera e o tio ao mesmo tempo. Desolado, sai sem destino até que, ao romper da aurora, se encontra em frente à Fonte das Fadas, onde uma donzela de grande beleza estava à sua espera. Ela lhe explica que, por ter sido um acidente, ele não pode ser acusado e nem tem culpa pela morte do tio. Em seguida, propõe um pacto, unindo as duas descendências. Ao temor do jovem, Melusina, a fada, teria respondido: “Eu sou da parte de Deus”. Vieram os filhos, marcados por sinais indicadores da sua dupla origem — um olho fora do lugar, uma orelha muito grande etc. De sábado a domingo, no entanto, a esposa ia em direção a uma torre. Seu marido, agora conde de Lusignan, prometera não segui-la, mas, tomado pela curiosidade, não cumpre a promessa. Na torre, ele a surpreende ao lado de uma moça nua que lhe trançava os cabelos. Percebe, apavorado, que o corpo da esposa terminava numa cauda cheia de escamas que se enroscava entre os nenúfares. Apavorado, o conde se benze e a mulher, por conta da violação, após soltar um grito de dor, lança-se da janela, agora transformada numa serpente alada. Mesmo não reaparecendo mais, tornar-se-á a protetora da casa de Lusignan, que cumpriria um destino glorioso na história francesa. Em diferentes épocas o mito será enfocado por Rabelais, Nerval, Peladan e André Breton.

  No conto O marido da Mãe d’Água há uma similaridade: no momento do encontro, ao ser instada se era uma alma penada, a Ondina responde: “ — Não sou alma penada, cristão! Sou a Mãe d’Água!” — repetindo a Melusina da tradição francesa, que dizia ser “da parte de Deus”. Câmara Cascudo cita dois episódios colhidos por João da Silva Campos, “com visível coloração negra”. Na verdade, são três, se incluirmos o conto A caça do mundé (LXII). Um caçador toma posse de uma roça abandonada e apanha no mundé uma moça que, em troca da liberdade, convida-o a viver em sua casa, impondo-lhe uma condição: nunca alegar que ela fora caçada num mundé. O homem passa a viver num castelo, mas, tornando-se soberbo, esquece-se da promessa e, depois de esperar mais do que o normal, pelo jantar, profere a frase fatal: “— Você bem mostra que foi caça no meu mundé...” — e a esposa, que só esperava que ele dissesse isso, desaparece, e com ela todo o esplendor. O homem reaparecerá no mesmo lugar do início da história, com sua espingarda e seus apetrechos de caça. Campbell, em O herói de mil faces, cita as mulheres selvagens, seres peludos que habitam cavernas nas montanhas e são muito temidos pelos camponeses russos. “Gostam de dançar ou fazer cócegas, até levar à morte as pessoas que caminham sozinhas pela floresta.” Ainda segundo Campbell, “muitas já se casaram com jovens camponeses, e, pelo que se diz, são excelentes esposas. Mas, como todas as noivas sobrenaturais, no momento em que o marido faz a mínima ofensa às suas noções extravagantes do comportamento conjugal adequado, elas desaparecem sem deixar vestígios”.

Yuki-Onna, a noiva sobrenatural dos contos folclóricos
 japoneses em gravura de Sawaki Suushi (1737)
  No Japão, Yuki-ona é, num dos contos do Kwaidan, de Lafcadio Hearn, a personificação do inverno naquele país. Hearn conta como os lenhadores Minokichi e Musaku, numa noite de tempestade, buscam abrigo numa cabana. O velho Musaku é morto por Yuki-onna, enquanto Minokichi é poupado, entre outros motivos, por ser ainda bem jovem. Não sem a advertência de que jamais deverá falar a ninguém sobre o encontro. Tempos depois, conhece uma jovem de pele muito alva, a quem desposa e de quem tem dez filhos. Uma noite, ao olhá-la costurando, ele relembra o dia fatídico em que conhecera Yuki-onna. Ela, então, revela sua verdadeira identidade, mas, por amor aos filhos, não cumpre a promessa. E, fundindo-se com o brilho da bruma branca, desaparece, não sendo mais vista pelo desventurado esposo.

  Nihil novi.

Por Marco Haurélio

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