sábado, 28 de julho de 2018

DO EGITO AO SERTÃO: METAMORFOSES DA GATA BORRALHEIRA


Cinderella. John Everett Millais (1891)


Cinderela (ATU 510A) é, sem dúvidas, o conto popular mais difundido no mundo. Charles Perrault, com sua Cendrillon, e os Grimm, com Auschenputtell, apenas difundiram as versões mais conhecidas da história. É a Gata Borralheira da tradição oral de Portugal, na versão de Consiglieri Pedroso, ou A enjeitada, registrada por Adolfo Coelho. A variante dos Irmãos Grimm que mais se aproxima da nossa estória é A senhora Holle, que se restringe apenas à primeira parte, sem príncipe nem casamento. A heroína é gratificada com uma chuva de ouro pelos serviços prestados à Senhora Holle, personificação da natureza e do mundo subterrâneo (infernal, Hell), e a invejosa é punida com um banho de pez, que nunca lhe sairá da pele. O galo anuncia a ventura da primeira e o castigo da segunda, como em algumas variantes brasileiras.

Recolhi três versões, todas sob o título Maria Borralheira, além de variantes com os subtipos “Pele de Burro (Asno)” (ATU 510B), Cara de Pau, na versão baiana que recolhi, Bicho de Palha, na de Câmara Cascudo; e Menina Boa e Menina Má, da qual registrei uma versão, inédita, O Bicho de Sete Cabeças (ATU 480AAs meninas e o diabo numa casa estranha). A vaquinha, auxiliar mágico da heroína, que simboliza a alma da mãe da menina — trata-se de uma órfã —, encarna o animal protetor, resquícios da Isis egípcia em seu aspecto lunar. O sacrifício do animal, por imposição da madrasta, faz com que a roda da fortuna gire a favor da heroína, propiciando seu encontro com as fadas. O sapatinho de ouro é reflexo de um antigo rito matrimonial conservado na narrativa popular, que faz lembrar o mito da cortesã grega Ródope que, posteriormente, desposa o faraó do Egito.

A contrapartida masculina, para mim, é o conto de “Goldener”, o João Ferrugem, dos Irmãos Grimm, ou O Anel de Bronze, o belo e, por vezes, cruel conto de fadas da coleção de Andrew Lang. Registrei, recentemente, O Príncipe-Pastor (ATU 314) com elementos do ATU 326 (O jovem que queria saber o que era ter medo). O conto do rapaz careca, uma óbvia variante, que Silvio Romero registrou, de possível origem oriental, já aparecia nas “Loucuras de Tristão”, em que, sob disfarce hediondo, o grande herói dos romances bretões, tentava se aproximar de sua amada, Isolda. O herói dourado, ora exuberante, ora repulsivo, é um avatar dos mitos solares, cujos mistérios, ligados à morte e à ressurreição, isto é, às estações do ano e aos ciclos da vida, estão em parte preservados no nosso conto.

NOTA: O texto acima serviu de base para o quinto encontro do grupo de Estudos Viagem de Retorno ao País da Infância, ocorrido sexta, 27 de julho, na Casa Tombada. 

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